V Conferência Geral do Episcopado Latino
Americano e do Caribe
Aparecida, 13-31 de maio de 2007
Introdução1. Com a luz do Senhor ressuscitado e com a
força do Espírito Santo, nós os bispos da América nos reunimos em
Aparecida, Brasil, para celebrar a V Conferência Geral do Episcopado
Latino Americano e do Caribe. Fizemos isso como pastores que querem
seguir estimulando a ação evangelizadora da Igreja, chamada a fazer
de todos os seus membros discípulos e missionários de Cristo,
Caminho, Verdade e Vida para que nossos povos tenham vida n’Ele.
Fazemos isso em comunhão com todas as Igrejas locais presentes na
América. Maria, Mãe de Jesus Cristo e de seus discípulos, tem estado
muito perto de nós, tem-nos acolhido, tem cuidado de nós e de nossos
trabalhos, amparando-nos, como a João Diego e a nossos povos, na
dobra de seu manto, sob sua maternal proteção. Temos pedido a ela,
como mãe, perfeita discípula e pedagoga da evangelização, que nos
ensine a ser filhos em seu Filho e a fazer o que Ele nos disser (cf.
Jo 2,5).
2. Com alegria estivemos reunidos com o Sucessor de Pedro, Cabeça
do Colégio Episcopal. Sua Santidade Bento XVI confirmou-nos no
primado da fé em Deus, de sua verdade e amor, para o bem das pessoas
e dos povos. Agradecemos a todos os seus ensinamentos, que foram
iluminação e guia seguro para nossos trabalhos, especialmente, seu
Discurso inaugural. A lembrança agradecida dos últimos Papas, e em
especial por seu rico Magistério que têm estado também presente em
nossos trabalhos, merece especial memória e gratidão.
3. Sentimo-nos acompanhados pela oração de nosso povo católico,
representado visivelmente pela companhia do Pastor e dos fiéis da
Igreja de Deus em Aparecida e pela multidão de peregrinos de todo
Brasil e de outros países da América ao Santuário, que nos
edificaram e evangelizaram. Na comunhão dos santos, tivemos presente
todos aqueles que nos antecederam como discípulos e missionários na
vinha do Senhor e especialmente a nossos santos latino-americanos,
entre eles Santo Toríbio de Mogrovejo, patrono do Episcopado
latino-americano.
4. O Evangelho chegou a nossas terras em meio a um dramático e
desigual encontro de povos e culturas. As “sementes do Verbo”1
presentes nas culturas autóctones, facilitaram a nossos irmãos
indígenas encontrarem no Evangelho respostas vitais às suas
aspirações mais profundas: “Cristo era o Salvador que esperavam
silenciosamente”2. A visitação de Nossa Senhora de Guadalupe foi
acontecimento decisivo para o anúncio e reconhecimento de seu Filho,
pedagogia e sinal de inculturação da fé, manifestação e renovado
ímpeto missionário de propagação do Evangelho3.
5. Desde a primeira evangelização até os tempos recentes a Igreja
tem experimentado luzes e sombras4. Ela escreveu páginas de nossa
história com grande sabedoria e santidade. Sofreu também tempos
difíceis, tanto por perseguições como pelas debilidades,
compromissos mundanos e incoerências, em outras palavras, pelo
pecado de seus filhos, que confundiram a novidade do Evangelho, a
luminosidade da verdade e a prática da justiça e da caridade. No
entanto, o mais decisivo na Igreja é sempre a ação santa de seu
Senhor.
6. Por isso, diante de tudo damos graças a Deus e o louvamos por
tudo o que nos tem sido dado. Acolhemos a toda a realidade do
Continente como um dom: a beleza e fecundidade de suas terras, a
riqueza de humanidade que se expressa nas pessoas, famílias, povos e
culturas do Continente. Sobretudo, nos tem sido dado Jesus Cristo, a
plenitude da revelação de Deus, um tesouro incalculável, a “pérola
preciosa” (cf. Mt 13,45-46). Verbo de Deus feito carne, Caminho,
Verdade e Vida dos homens e das mulheres aos quais abre um destino
de plena justiça e felicidade. Ele é o único Libertador e Salvador
que, com sua morte e ressurreição, rompeu as cadeias opressivas do
pecado e da morte, revelando o amor misericordioso do Pai e a
vocação, dignidade e destino da pessoa humana.
7. As maiores riquezas de nossos povos são a fé no Deus de amor e
a tradição católica na vida e na cultura. Manifesta-se na fé madura
de muitos batizados e na piedade popular que expressa “o amor a
Cristo sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação
(...), o amor ao Senhor presente na Eucaristia (...), - o Deus
próximo dos pobres e dos que sofrem, - a profunda devoção à
Santíssima Virgem de Guadalupe, de Aparecida ou dos diversos nomes
nacionais e locais”5. Expressa-se também na caridade que em todas as
partes anima gestos, obras e caminhos de solidariedade para com os
mais necessitados e desamparados. Está presente também na
consciência da dignidade da pessoa, na sabedoria diante da vida, na
paixão pela justiça, na esperança contra toda esperança e na alegria
de viver que move o coração de nosso povo, ainda que em condições
muito difíceis. As raízes católicas permanecem na arte, linguagem,
tradições e estilo de vida do povo, ao mesmo tempo dramático e
festivo e no enfrentamento da realidade. Por isso, o Santo padre nos
responsabilizou ainda mais, como Igreja, da “grande tarefa de
proteger e alimentar a fé do povo de Deus”6.
8. O dom da tradição católica é um cimento fundamental de
identidade, originalidade e unidade da América latina e do caribe:
uma realidade histórico-cultural, marcada pelo Evangelho de Cristo,
realidade na qual abunda o pecado – abandono de Deus, comportamentos
viciosos, de opressão, violência, ingratidões e misérias – porém,
onde superabunda a graça da vitória pascal. Nossa Igreja goza, não
obstante as debilidades e misérias humanas, de um alto índice de
confiança e de credibilidade por parte do povo. A Igreja é morada de
povos irmãos e casa dos pobres.
9. A V Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho é
um novo passo no caminho da Igreja, especialmente desde o Concílio
Ecumênico Vaticano II. Ela dá continuidade e, ao mesmo tempo,
recapitula o caminho de fidelidade, renovação e evangelização da
Igreja latino-americanas a serviço de seus povos, que se expressou
oportunamente nas Conferências Gerais anteriores do Episcopado (Rio,
1955; Medellín, 1968; Puebla, 1979; Santo Domingo, 1992). Em todas
elas reconhecemos a ação do Espírito. Também nos lembramos da
Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para América (1997).
10. Esta V Conferência se propõe “à grande tarefa de conservar e
alimentar a fé do povo de Deus e recordar também aos fiéis deste
continente que, em virtude de seu batismo, são chamados a serem
discípulos e missionários de Jesus Cristo”7. Com desafios e
exigências, abre-se passagem para um novo período da história,
caracterizado pela desordem generalizada que se propaga por novas
turbulências sociais e políticas, pela difusão de uma cultura
distante e hostil à tradição cristã e pela emergência de variadas
ofertas religiosas que tratam de responder, a sua maneira, à sede de
Deus que nossos povos manifestam.
11. A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com
fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias
latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se àqueles que
trazem confusão, perigos e ameaças ou àqueles que pretendem cobrir a
variedade e complexidade das situações com uma capa de ideologias
gastas ou de agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar,
renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa
história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus
Cristo, que desperte discípulos e missionários. Isso não depende de
grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que
encarnem essa tradição e novidade, como discípulos de Jesus Cristo e
missionários de seu reino, protagonistas de uma vida nova para uma
América Latina que deseja se reconhecer com a luz e a força do
Espírito.
12. Uma fé católica reduzida a conhecimento, a um elenco de
algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas,
a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma
participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de
princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não
convertem a vida dos batizados, não resistiria aos embates do tempo.
Nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da
Igreja na qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na
verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”8. A
todos nos toca “recomeçar a partir de Cristo”9, reconhecendo que
“não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande
idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que
dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”10.
13. Na América Latina e no Caribe, quando muitos de nossos povos
se preparam para celebrar o bi-centenário de sua independência,
encontramo-nos diante do desafio de revitalizar nosso modo de ser
católico e nossas opções pessoais pelo Senhor, para que a fé cristã
se estabeleça mais profundamente no coração das pessoas e dos povos
latino-americanos como acontecimento fundante e encontro vivificante
com Cristo, manifestado como novidade de vida e de missão de todas
as dimensões da existência pessoal e social. Isto requer, a partir
de nossa identidade católica, uma evangelização muito mais
missionária, em diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos
os homens. Do contrário, “o rico tesouro do Continente Americano...
seu patrimônio mais valioso: a fé no Deus de amor...”11 corre os
risco de seguir desgastando-se e diluindo-se de maneira crescente em
diversos setores da população. Hoje se considera escolher entre
caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte (cf.
Dt 30.15). Caminhos de morte são os que levam a dilapidar os bens
que recebemos de Deus através daqueles que nos precederam na fé. São
caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou
inclusive contra Deus, animada pelos ídolos do poder, da riqueza e
do prazer efêmero, a qual termina sendo uma cultura contra o ser
humano e contra o bem dos povos latino-americanos. Os caminhos de
vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida eterna, são
aqueles abertos pela fé que conduzem à “plenitude de vida que Cristo
nos trouxe: com esta vida divina, também se desenvolve em plenitude
a existência humana, em sua dimensão pessoal, familiar, social e
cultural”12. Essa é a vida que Deus nos participa por seu amor
gratuito, porque “é o amor que dá a vida”13. Estes caminhos
frutificam nos dons de verdade e de amor que nos foram dados em
Cristo, na comunhão dos discípulos e missionários do Senhor, para
que América Latina e Caribe sejam efetivamente um continente no qual
a fé, a esperança e o amor renovem a vida das pessoas e transformem
as culturas dos povos.
14. O Senhor nos disse: “não tenham medo” (Mt 28,5). Como às
mulheres na manhã da Ressurreição nos é repetido: “Por que buscam
entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5). Os sinais da
vitória de Cristo ressuscitado nos estimulam enquanto suplicamos a
graça da conversão e mantemos viva a esperança que não defrauda. O
que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os
desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas todo
o amor recebido do Pai, graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito
Santo. Esta prioridade fundamental é a que tem presidido todos os
nossos trabalhos que oferecemos a Deus, à nossa Igreja, a nosso
povo, a cada um dos latino-americanos, enquanto elevamos ao Espírito
Santo nossa súplica para que redescubramos a beleza e a alegria de
ser cristãos. Aqui está o desafio fundamental que contrapomos:
mostrar a capacidade da Igreja de promover e formar discípulos que
respondam à vocação recebida e comuniquem em todas as partes,
transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus
Cristo. Não temos outro tesouro a não ser este. Não temos outra
felicidade nem outra prioridade que não seja sermos instrumentos do
Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado,
seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos, não
obstante todas as dificuldades e resistências. Este é o melhor
serviço – seu serviço! – que a Igreja tem que oferecer às pessoas e
nações14.
15. Nesta hora em que renovamos a esperança, queremos fazer
nossas as palavras de SS. Bento XVI no início de seu Pontificado,
fazendo eco a seu predecessor, o Servo de Deus, João Paulo II, e
proclamá-las para toda a América Latina: Não temam! Abram, abram de
par em par as portas a Cristo!... quem deixa Cristo entrar a não
perde nada, nada – absolutamente nada – do que faz a vida livre,
bela e grande. Não! Só com esta amizade abrem-se as portas da vida.
Só com esta amizade abrem-se realmente as grandes potencialidades da
condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o
que nos liberta... Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e
nos dá tudo. Quem se dá a Ele, recebe cem por um. Sim, abram, abram
de par em par as portas a Cristo e encontrarão a verdadeira vida15.
16. “Esta V Conferência Geral celebra-se em continuidade com as
outras quatro que a precederam no Rio de Janeiro, Medellín, Puebla e
Santo Domingo. Com o mesmo espírito que as animou, os pastores
querem dar agora um novo impulso à evangelização, a fim de que estes
povos sigam crescendo e amadurecendo em sua fé, para serem luz do
mundo e testemunhas de Jesus Cristo com sua própria vida”16. Como
pastores da Igreja estamos conscientes de que “depois da IV
Conferência Geral, em Santo Domingo, muitas coisas mudaram na
sociedade. A Igreja, que participa dos gozos e esperanças, das
tristezas e alegrias de seus filhos, quer caminhar ao seu lado neste
período de tantos desafios, para infundir-lhes sempre esperança e
consolo”17.
17. Nossa alegria, portanto, baseia-se no amor do Pai, na
participação no mistério pascal de Jesus cristo que, pelo Espírito
Santo, faz-nos passar da morte para a vida, da tristeza para a
alegria, do absurdo para o sentido profundo da existência, do
desalento para a esperança que não engana. Esta alegria não é um
sentimento artificialmente provocado nem um estado de ânimo
passageiro. O amor do Pai nos foi revelado em Cristo que nos convida
a entrar em seu reino. Ele nos ensinou a orar dizendo “Abba, Pai” (Rm
8,15; cf. Mt 6,9).
18. Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é
uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o
Senhor, ao nos chamar e nos eleger, nos confiou. Com os olhos
iluminados pela luz de Jesus Cristo ressuscitado podemos e queremos
contemplar o mundo, a história, os nossos povos da América Latina e
do Caribe e cada um de seus habitantes.
PRIMEIRA PARTE
A VIDA DE NOSSOS POVOS HOJE
19. Em continuidade com as Conferências Gerais anteriores do
Episcopado Latino-americano, este documento faz uso do método “ver,
julgar e agir”. Este método implica em contemplar a Deus com os
olhos da fé através de sua Palavra revelada e o contato vivificador
dos Sacramentos, a fim de que, na vida cotidiana, vejamos a
realidade que nos circunda à luz de sua providência e a julguemos
segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e atuemos a partir
da Igreja, Corpo Místico de Cristo e Sacramento universal de
salvação, na propagação do Reino de Deus, que se semeia nesta terra
e que frutifica plenamente no Céu. Muitas vozes, vindas de todo o
Continente ofereceram contribuições e sugestões nesse sentido,
afirmando que este método tem colaborado para que vivamos mais
intensamente nossa vocação e missão na Igreja: tem enriquecido nosso
trabalho teológico e pastoral e, em geral, tem-nos motivado a
assumir nossas responsabilidades diante das situações concretas de
nosso continente. Este método nos permite articular, de modo
sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de
critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e
valorização, com sentido crítico; e, em conseqüência, a projeção do
agir como discípulos missionários de Jesus Cristo. A adesão crente,
alegre e confiada no Deus Pai, Filho e Espírito Santo e a inserção
eclesial, são pressupostos indispensáveis que garantem a eficácia
deste método18.
CAPÍTULO 1
OS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
20. Nossa reflexão a respeito do caminho das Igrejas da América
Latina e do Caribe tem lugar em meio à luzes e sombras de nosso
tempo. Afligem-nos, mas não nos confundem, as grandes mudanças que
experimentamos. Temos recebido dons incalculáveis, que nos ajudam a
olhar a realidade como discípulos missionários de Jesus Cristo.
21. A presença cotidiana e cheia de esperança de incontáveis
peregrinos nos lembra dos primeiros seguidores de Jesus Cristo que
foram ao Jordão, onde João batizava, com a esperança de encontrar o
Messias (cf. Mc 1,5). Eles se sentiram atraídos pela sabedoria das
palavras de Jesus, pela bondade de seu trato e pelo poder de seus
milagres. E pelo assombro inusitado que a pessoa de Jesus
despertava, acolheram o dom da fé e vieram a ser discípulos de
Jesus. Ao sair das trevas e das sombras de morte (cf. Lc 1,79) a
vida deles adquiriu uma plenitude extraordinária: a de haver sido
enriquecida com o dom do Pai. Viveram a história de seu povo e de
seu tempo e passaram pelos caminhos do Império Romano, sem esquecer
o encontro mais importante e decisivo de sua vida que os havia
preenchido de luz, de força e de esperança: o encontro com Jesus,
sua rocha, sua paz, sua vida.
22. Assim também nos ocorre olhar a realidade de nossos povos e
de nossa Igreja, com seus valores, suas limitações, suas angústias e
esperanças. Enquanto sofremos e nos alegramos, permanecemos no amor
de Cristo, vendo nosso mundo e procurando discernir seus caminhos
com a alegre esperança e a indizível gratidão de crer em Jesus
Cristo. Ele é o Filho de Deus verdadeiro, o único Salvador da
humanidade. A importância única e insubstituível de Cristo para nós,
para a humanidade, consiste em que Cristo é o caminho, a Verdade e a
Vida. “Se não conhecemos a Deus em Cristo e com Cristo, toda a
realidade se torna um enigma indecifrável; não há caminho e, ao não
haver caminho, não há vida nem verdade”19. No clima cultural
relativista que nos circunda, onde é aceita só uma religião natural,
faz-se sempre mais importante e urgente estabelecer e fazer
amadurecer em todo o corpo eclesial a certeza de que Cristo, o Deus
de rosto humano, é nosso verdadeiro e único salvador.
23. Neste encontro, queremos expressar a alegria de sermos
discípulos do Senhor e de termos sido enviados com o tesouro do
Evangelho. Ser cristão não é uma carga, mas um dom: Deus Pai nos
abençoou em Jesus Cristo seu Filho, Salvador do mundo.
1.1. Ação de graças a Deus
24. Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos
abençoou com toda sorte de bênçãos na pessoa de Cristo (cf. Ef 1,3).
O Deus da Aliança, rico em misericórdia, nos amou primeiro;
imerecidamente amou a cada um de nós; por isso o bendizemos,
animados pelo Espírito Santo, Espírito vivificador, alma e vida da
Igreja. Ele, que foi derramado em nossos corações, geme e intercede
por nós e, com seus dons nos fortalece em nosso caminho de
discípulos e missionários.
25. Bendizemos a Deus com ânimo agradecido, porque nos chamou
para sermos instrumentos de seu reino de amor e de vida, de justiça
e de paz, pelo qual tantos se sacrificaram. Ele mesmo nos encomendou
a obra de suas mãos para que cuidemos dela e a coloquemos a serviço
de todos. Agradecemos a Deus por nos fazer seus colaboradores para
que sejamos solidários com sua criação pela qual somos responsáveis.
Bendizemos a Deus que nos deu a natureza criada que é seu primeiro
livro para possamos conhecer a Ele e viver nela como em nossa casa.
26. Damos graças a Deus que nos deu o dom da palavra, com a qual
podemos nos comunicar entre nós e com Ele por meio de seu Filho, que
é sua Palavra (cf. Jo 1,1). Damos graças a Ele que, por seu grande
amor fala a nós como a amigos (cf. Jo 15,14-15). Bendizemos a Deus
que se nos dá na celebração da fé, especialmente na Eucaristia, pão
de vida eterna. A ação de graças a Deus pelos numerosos e admiráveis
dons que nos outorgou culmina na celebração central da Igreja, que é
a Eucaristia, alimento substancial dos discípulos e missionários.
Também pelo Sacramento do Perdão de Cristo que nos alcançou na cruz.
Louvamos ao Senhor Jesus pelo presente de sua Mãe Santíssima, Mãe de
Deus e Mãe da Igreja na América Latina e do Caribe, estrela da
evangelização renovada, primeira discípula e grande missionária de
nossos povos.
1.2. A alegria de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo
27. Iluminados pelo Cristo, o sofrimento, a injustiça e a cruz
nos desafiam a viver como Igreja samaritana (cf. Lc 10,25-37),
recordando que “a evangelização vai unida sempre à promoção humana e
à autêntica libertação cristã”20. Damos graças a Deus e nos
alegramos pela fé, solidariedade e alegria características de nossos
povos, transmitidas ao longo do tempo pelas avós e avôs, as mães e
pais, os catequistas, os rezadores e tantas pessoas anônimas, cuja
caridade mantém viva a esperança em meio às injustiças e
adversidades.
28. A Bíblia mostra reiteradamente que, quando Deus criou o mundo
com sua Palavra, expressou satisfação, dizendo que era “bom” (Gn
1,21), e quando criou o ser humano, homem e mulher, disse que “era
muito bom” (Gn 1,31). O mundo criado por Deus é belo. Procedemos de
um desígnio divino de sabedoria e amor. Mas, através do pecado esta
beleza originária foi desonrada e esta bondade ferida. Deus, por
nosso Senhor Jesus Cristo, em seu mistério pascal, recriou o homem
fazendo-o filho e dando a ele a garantia de novos céus e de uma nova
terra (cf. Ap 21,1). Levamos a imagem do primeiro Adão, mas somos
chamados também, desde o princípio, a produzir a imagem de Jesus
Cristo, novo Adão (cf. 1 Cor 15,45). A criação leva a marca do
Criador e deseja ser libertada e “participar na gloriosa liberdade
dos filhos de Deus” (Rm 8,21).
1.3. A missão da Igreja é evangelizar
29. A história da humanidade, história que Deus nunca abandona,
transcorre sob seu olhar compassivo. Deus amou tanto nosso mundo que
nos deu seu Filho. Ele anuncia a boa nova do Reino aos pobres e aos
pecadores. Por isso, nós, como discípulos e missionários de Jesus,
queremos e devemos proclamar o Evangelho, que é o próprio Cristo.
Anunciamos a nossos povos que Deus nos ama, que sua existência não é
uma ameaça para o homem, que Ele está perto com o poder salvador e
libertador de seu Reino, que Ele nos acompanha na tribulação, que
alenta incessantemente nossa esperança em meio a todas as provas. Os
cristãos são portadores de boas novas para a humanidade, não
profetas de desventuras.
30. A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus
e adotando suas atitudes (cf. Mt 9,35-36). Ele, sendo o Senhor,
fez-se servo e obediente até a morte de cruz (cf. Fl 2,8); sendo
rico, escolheu ser pobre por nós (cf. 2 Cor 8,9), ensinando-nos o
caminho de nossa vocação de discípulos e missionários. No Evangelho
aprendemos a sublime lição de ser pobres seguindo a Jesus pobre (cf.
Lc 6,20; 9,58), e a de anunciar o Evangelho da paz sem bolsa ou
alforje, sem colocar nossa confiança no dinheiro nem no poder deste
mundo (cf. Lc 10,4 ss). Na generosidade dos missionários se
manifesta a generosidade de Deus, na gratuidade dos apóstolos
aparece a gratuidade do Evangelho.
31. No rosto de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, maltratado
por nossos pecados e glorificado pelo Pai, nesse rosto doente e
glorioso21, com o olhar da fé podemos ver o rosto humilhado de
tantos homens e mulheres de nossos povos e, ao mesmo tempo, sua
vocação à liberdade dos filhos de Deus, à plena realização de sua
dignidade pessoal e à fraternidade entre todos. A Igreja está a
serviço de todos os seres humanos, filhos e filhas de Deus.
32. Desejamos que a alegria que recebemos no encontro com Jesus
Cristo, a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e
redentor, chegue a todos os homens e mulheres feridos pelas
adversidades; desejamos que a alegria da boa nova do Reino de Deus,
de Jesus Cristo vencedor do pecado e da morte, chegue a todos
quantos jazem à beira do caminho, pedindo esmola e compaixão (cf. Lc
10,29-37; 18,25-43). A alegria do discípulo é antídoto frente a um
mundo atemorizado pelo futuro e agoniado pela violência e pelo ódio.
A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas
uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para
anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor
presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o
melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa
palavra e obras é nossa alegria.
CAPÍTULO 2
OLHAR DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS SOBRE A REALIDADE
2.1 A realidade que nos desafia como discípulos e missionários
33. Os povos da América Latina e do Caribe vivem hoje uma
realidade marcada por grandes mudanças que afetam profundamente
suas vidas. Como discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados
a discernir os “sinais dos tempos”, à luz do Espírito Santo, para
nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para
que todos tenham vida e “para que a tenham em abundância” (Jo
10,10).
34. A novidade destas mudanças, diferentemente do ocorrido em
outras épocas, é que elas têm um alcance global que, com diferenças
e matizes, afetam o mundo inteiro. Habitualmente elas são
caracterizadas como o fenômeno da globalização. Um fator
determinante destas mudanças é a ciência e a tecnologia, com sua
capacidade de manipular geneticamente a própria vida dos seres
vivos, e com sua capacidade de criar uma rede de comunicações de
alcance mundial, tanto pública como privada, para interagir em tempo
real, ou seja, com simultaneidade, não obstante as distâncias
geográficas. Como se costuma dizer, a história se acelerou e as
próprias mudanças se tornam vertiginosas, visto que se comunica com
grande velocidade a todos os cantos do planeta.
35. Esta nova escala mundial do fenômeno humano traz
conseqüências em todos os campos de atividade da vida social,
impactando a cultura, a economia, a política, as ciências, a
educação, o esporte, as artes e também, naturalmente, a religião.
Interessa-nos, como pastores da Igreja, saber como este fenômeno
afeta a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético de nossos
irmãos que buscam infatigavelmente o rosto de Deus, e que, no
entanto, devem fazê-lo, agora desafiados por novas linguagens do
domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o
sentido divino da vida humana redimida em Cristo. Sem uma clara
percepção do mistério do Deus, o desígnio amoroso e paternal de uma
vida digna para todos os seres humanos torna-se opaco também.
36. Neste novo contexto social, a realidade para o ser humano se
tornou cada vez mais sem brilho e complexa. Isto quer dizer que
qualquer pessoa individual necessita sempre mais informação se
deseja exercer sobre a realidade o senhorio a que, por vocação, está
chamada. Isto tem nos ensinado a olhar a realidade com mais
humildade, sabendo que ela é maior e mais complexa que as
simplificações com que costumávamos vê-la em um passado ainda não
muito distante e que, em muitos casos, introduziram conflitos na
sociedade, deixando muitas feridas que ainda não conseguiram
cicatrizar. Também se tornou difícil perceber a unidade de todos os
fragmentos dispersos que resultam da informação que reunimos. É
freqüente que alguns queiram olhar a realidade unilateralmente a
partir da informação econômica, outros a partir da informação
política ou científica, outros a partir do entretenimento ou do
espetáculo. No entanto, nenhum destes critérios parciais consegue
nos propor um significado coerente para tudo o que existe. Quando as
pessoas percebem esta fragmentação e limitação, costumam se sentir
frustradas, ansiosas, angustiadas. A realidade social parece muito
grande para uma consciência que, levando em consideração sua falta
de saber e de informação, facilmente se crê insignificante, sem
ingerência alguma nos acontecimentos, mesmo quando soma sua voz a
outras vozes que procuram se ajudar reciprocamente.
37. Esta é a razão pela qual muitos estudiosos de nossa época
sustentam que a realidade traz inseparavelmente uma crise do
sentido. Eles não se referem aos múltiplos sentidos parciais que
cada um pode encontrar nas ações cotidianas que realiza, mas ao
sentido que dá unidade a tudo o que existe e nos sucede na
experiência, e que os cristãos chamam de sentido religioso.
Habitualmente, este sentido se coloca a nossa disposição através de
nossas tradições culturais que representam a hipótese de realidade
com que cada ser humano pode olhar o mundo em que vive. Em nossa
cultura latino-americana e caribenha conhecemos o papel tão nobre e
orientador que a religiosidade popular desempenha, especialmente a
devoção mariana, que contribuiu para nos tornar mais conscientes de
nossa comum condição de filhos de Deus e de nossa comum dignidade
perante seus olhos, não obstante as diferenças sociais, étnicas ou
de qualquer outro tipo.
38. No entanto, devemos admitir que esta preciosa tradição começa
a se diluir. A maioria dos meios de comunicação de massa nos
apresentam agora novas imagens, atrativas e cheias de fantasia.
Ainda que todos saibam que elas não podem mostrar o sentido unitário
de todos os fatores da realidade, oferecem ao menos o consolo de ser
transmitidas em tempo real, ao vivo e direto, com atualidade. Longe
de preencher o vazio produzido em nossa consciência pela falta de um
sentido unitário da vida, em muitas ocasiões a informação
transmitida pelos meios só nos distrai. A falta de informação só se
resolve com mais informação, retro-alimentando a ansiedade de quem
percebe que está em um mundo opaco o qual não compreende.
39. Este fenômeno talvez explique um dos fatos mais
desconcertantes e originais que vivemos no presente. Nossas
tradições culturais já não se transmitem de uma geração à outra com
a mesma fluidez que no passado. Isso afeta, inclusive, esse núcleo
mais profundo de cada cultura, constituído pela experiência
religiosa, que parece agora igualmente difícil de ser transmitido
através da educação e da beleza das expressões culturais, alcançando
inclusive a própria família que, como lugar do diálogo e da
solidariedade inter-geracional, havia sido um dos veículos mais
importantes da transmissão da fé. Os meios de comunicação invadiram
todos os espaços e todas as conversas, introduzindo-se também na
intimidade do lar. Ao lado da sabedoria das tradições, em
competição, localizam-se agora a informação de último minuto, a
distração, o entretenimento, as imagens dos vencedores que souberam
usar a seu favor as ferramentas tecnológicas e as expectativas de
prestígio e estima social. Isso faz com que as pessoas busquem
denodadamente uma experiência de sentido que preencha as exigências
de sua vocação, ali onde nunca poderão encontrá-la.
40. Entre os pressupostos que enfraquecem e menosprezam a vida
familiar encontramos a ideologia de gênero, segundo a qual cada um
pode escolher sua orientação sexual, sem levar em consideração as
diferenças dadas pela natureza humana. Isto tem provocado
modificações legais que ferem gravemente a dignidade do matrimônio,
o respeito ao direito à vida e a identidade da família22.
41. Por esta razão, os cristãos precisam recomeçar a partir de
Cristo, a partir da contemplação de quem nos revelou em seu mistério
a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido.
Necessitamos nos fazer discípulos dóceis, para aprende d’Ele, em seu
seguimento, a dignidade e a plenitude de vida. E necessitamos, ao
mesmo tempo, que o zelo missionário nos consuma para levar ao
coração da cultura de nosso tempo aquele sentido unitário e completo
da vida humana que nem a ciência, nem a política, nem a economia nem
os meios de comunicação poderão proporcionar. Em Cristo Palavra,
Sabedoria de Deus (cf. 1 Cor 1,30), a cultura pode voltar a
encontrar seu centro e sua profundidade, a partir de onde é possível
olhar a realidade no conjunto de todos seus fatores, discernindo-os
à luz do Evangelho e dando a cada um seu lugar e sua dimensão
adequada.
42. Como nos disse o Papa em seu discurso inaugural: “só quem
reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo
adequado e realmente humano”23. A sociedade que coordena suas
atividades só mediante múltiplas informações, acredita que pode
operar de fato como se Deus não existisse. Mas a eficácia dos
procedimentos conseguida mediante a informação, ainda que com as
tecnologias mais desenvolvidas, não consegue satisfazer o desejo de
dignidade inscrito no mais profundo da vocação humana. Por isso, não
basta supor que a mera diversidade de pontos de vista, de opções e,
finalmente, de informações, que costuma receber o nome de pluri ou
multiculturalidade, resolverá a ausência de um significado unitário
para tudo o que existe. A pessoa humana é, em sua própria essência,
aquele lugar da natureza para onde converge a variedade dos
significados em uma única vocação de sentido. As pessoas não se
assustam com a diversidade. O que de fato as assusta é não conseguir
reunir o conjunto de todos estes significados da realidade em uma
compreensão unitária que lhes permita exercer sua liberdade com
discernimento e responsabilidade. A pessoa sempre procura a verdade
de seu ser, visto que é esta verdade que ilumina a realidade de tal
modo que possa se desenvolver nela com liberdade e alegria, com gozo
e esperança.
2.1.1 Situação Sócio-cultural
43. Portanto, a realidade social que em sua dinâmica atual
descrevemos com a palavra globalização, antes que qualquer outra
dimensão, impacta a nossa cultura e o modo como nos inserimos e nos
apropriamos dela. A variedade e a riqueza das culturas
latino-americanas, desde aquelas mais originárias até aquelas que
com a passagem da história e a mestiçagem de seus povos foram se
sedimentando nas nações, nas famílias, nos grupos sociais, nas
instituições educativas e na convivência cívica, constitui um dado
bastante evidente para nós o qual valorizamos como uma singular
riqueza. O que hoje em dia está em jogo não é a diversidade que os
meios de comunicação são capazes de individualizar e registrar. O
que ninguém esquece é, pelo contrário, a possibilidade de que esta
diversidade possa convergir em uma síntese que, envolvendo a
variedade de sentidos, seja capaz de projetá-la em um destino
histórico comum. Nisto reside o valor incomparável do ânimo mariano
de nossa religiosidade popular que, sob distintos nomes, tem sido
capaz de fundir as histórias latino-americanas diversas em uma
história compartilhada: aquela que conduz a Cristo, Senhor da vida,
em quem se realiza a mais alta dignidade de nossa vocação humana.
44. Vivemos uma mudança de época cujo nível mais profundo é o
cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua
relação com o mundo e com Deus; “aqui está precisamente o grande
erro das tendências dominantes do último século... Que excluem Deus
de seu horizonte, falsificam o conceito da realidade e só podem
terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas24. Surge
hoje, com grande força, uma sobrevalorização da subjetividade
individual. Independentemente de sua forma, a liberdade e a
dignidade da pessoa são reconhecidas. O individualismo enfraquece os
vínculos comunitários e propõe uma radical transformação do tempo e
do espaço, dando um papel primordial à imaginação. Os fenômenos
sociais, econômicos e tecnológicos estão na base da profunda
vivência do tempo, ao que se concebe fixado no próprio presente,
trazendo concepções de inconsistência e instabilidade. Deixa-se de
lado a preocupação pelo bem comum para dar lugar à realização
imediata dos desejos dos indivíduos, à criação de novos e, muitas
vezes, arbitrários direitos individuais, aos problemas da
sexualidade, da família, das enfermidades e da morte.
45. A ciência e a tecnologia quando colocadas exclusivamente a
serviço do mercado, com os critérios únicos da eficácia, da
rentabilidade e do funcional, criam uma nova visão da realidade. A
utilização dos meios de comunicação de massa está introduzindo na
sociedade um sentido estético, uma visão a respeito da felicidade,
uma percepção da realidade e até uma linguagem, que se querem impor
como uma autêntica cultura. Deste modo, termina-se por destruir o
que de verdadeiramente humano há nos processos de construção
cultural, que nascem do intercâmbio pessoal e coletivo.
46. Verifica-se, em nível intenso, uma espécie de nova
colonização cultural pela imposição de culturas artificiais,
desprezando as culturas locais e com tendência a impor uma cultura
homogeneizada em todos os setores. Esta cultura se caracteriza pela
auto-referência do indivíduo, que conduz à indiferença pelo outro,
de quem não necessita e por quem não se sente responsável.
Prefere-se viver o dia a dia, sem programas a longo prazo nem apegos
pessoais, familiares e comunitários. As relações humanas estão sendo
consideradas objetos de consumo, conduzindo a relações afetivas sem
compromisso responsável e definitivo.
47. Também se verifica uma tendência para a afirmação exasperada
de direitos individuais e subjetivos. Esta busca é pragmática e
imediatista, sem preocupação com critérios éticos. A afirmação dos
direitos individuais e subjetivos, sem um esforço semelhante para
garantir os direitos sociais culturais e solidários, resulta em
prejuízo da dignidade de todos, especialmente daqueles que são mais
pobres e vulneráveis.
48. Nesta hora da América Latina e do Caribe, é imperativo tomar
consciência da situação precária que afeta a dignidade de muitas
mulheres. Algumas desde crianças e adolescentes, são submetidas a
múltiplas formas de violência dentro e fora de casa: tráfico,
violação, escravização e assédio sexual; desigualdades na esfera do
trabalho, da política e da economia; exploração publicitária por
parte de muitos meios de comunicação social que as tratam como
objeto de lucro.
49. As mudanças culturais modificaram os papéis tradicionais de
homens e mulheres, que procuram desenvolver novas atitudes e estilos
de suas respectivas identidades, potencializando todas suas
dimensões humanas na convivência cotidiana, na família e na
sociedade, às vezes por vias equivocadas.
50. A avidez do mercado descontrola o desejo de crianças, jovens
e adultos. A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes e
maravilhosos, onde todo desejo pode ser satisfeito pelos produtos
que têm um caráter eficaz, efêmero e até messiânico. Legitima-se que
os desejos se tornem felicidade. Como só se necessita do imediato, a
felicidade se pretende alcançar através do bem-estar econômico e da
satisfação hedonista.
51. As novas gerações são as mais afetadas por esta cultura do
consumo em suas aspirações pessoais profundas. Crescem na lógica do
individualismo pragmático e narcisista, que desperta nelas mundos
imaginários especiais de liberdade e igualdade. Afirmam o presente
porque o passado perdeu relevância diante de tantas exclusões
sociais, políticas e econômicas. Para eles o futuro é incerto.
Assim mesmo, participam da lógica da vida como espetáculo,
considerando o corpo como ponto de referência de sua realidade
presente. Têm um novo vício pelas sensações e crescem em uma grande
maioria sem referência aos valores e instâncias religiosas. Em meio
à realidade de mudança cultural emergem novos sujeitos, com novos
estilos de vida, maneiras de pensar, de sentir, de perceber e com
novas formas de se relacionar. São produtores e atores da nova
cultura.
52. Entre os aspectos positivos desta mudança cultural aparece o
valor fundamental da pessoa, de sua consciência e experiência, a
busca do sentido da vida e da transcendência. Para dar respostas à
busca mais profunda do significado da vida, o fracasso das
ideologias dominantes, permitiu que a simplicidade e o
reconhecimento do fraco e do pequeno na existência surgissem como
valor, com uma grande capacidade e potencial que não podem ser
desvalorizados. Esta ênfase na apreciação da pessoa abre novos
horizontes, onde a tradição cristã adquire um renovado valor,
sobretudo quando a pessoa se reconhece no Verbo encarnado que nasce
em um estábulo e assume uma condição humilde, de pobre.
53. A necessidade de construir o próprio destino e o desejo de
encontrar razões para a existência podem colocar em movimento o
desejo de se encontrar com outros e compartilhar o vivido, como uma
maneira de se dar uma resposta. Trata-se de uma afirmação da
liberdade pessoal e, por isso, da necessidade de se questionar em
profundidade as próprias convicções e opções.
54. Porém, junto com a ênfase na responsabilidade individual em
meio a sociedades que promovem o acesso aos bens através dos meios.
Paradoxalmente, nega-se às grandes maiorias o acesso aos mesmos
bens, que constituem elementos básicos e essenciais para viverem
como pessoas.
55. A ênfase na experiência pessoal e no vivencial nos leva a
considerar o testemunho como um componente chave na vivência da fé.
Os fatos são valorizados quando são significativos para a pessoa. Na
linguagem testemunhal podemos encontrar um ponto de contato com as
pessoas que compõem a sociedade e delas entre si.
56. Por outro lado, a riqueza e a diversidade cultural dos povos
da América Latina e do Caribe parecem evidentes. Existem em nossa
região diversas culturas indígenas, afro americanas, mestiças,
camponesas, urbanas e suburbanas. As culturas indígenas se
caracterizam sobretudo por seu apego profundo à terra, pela vida
comunitária e por uma certa procura de Deus Os afro-americanos se
caracterizam, entre outros elementos, pela expressividade corporal,
o enraizamento familiar e o sentido de Deus. A cultura camponesa
está referida ao ciclo agrário. A cultura mestiça, que é a mais
extensa entre muitos povos da região, tem buscado em meios às
contradições sintetizar ao longo da história estas múltiplas fontes
culturais originárias, facilitando o diálogo das respectivas
cosmovisões e permitindo sua convergência em uma história
compartilhada. A esta complexidade cultural haveria que se
acrescentar também a de tantos imigrantes europeus que se
estabeleceram nos países de nossa região.
57. Estas culturas coexistem em condições desiguais com a chamada
cultura globalizada. Elas exigem reconhecimento e oferecem valores
que constituem uma resposta aos anti-valores da cultura e que se
impõem através dos meios de comunicação de massas: comunitarismo,
valorização da família, abertura à transcendência e solidariedade.
Estas culturas são dinâmicas e estão em interação permanente entre
si e com as diferentes propostas culturais.
58. A cultura urbana é híbrida, dinâmica e mutável, pois amálgama
múltiplas formas, valores e estilos de vida e afeta todas as
coletividades. A cultura suburbana é fruto de grandes migrações de
população, em sua maioria pobre, que se estabeleceu ao redor das
cidades nos cinturões de miséria. Nestas culturas os problemas de
identidade e pertença, relação, espaço vital e lar são cada vez mais
complexos.
59. Existem também comunidades de migrantes que deixaram as
culturas e tradições trazidas de suas terras de origem, sejam
cristãs ou de outras religiões. Por sua vez, esta diversidade
inclui comunidades que foram se formando com a chegada de diferentes
denominações cristãs e outros grupos religiosos. Assim, assumir a
diversidade cultural, que é um imperativo do momento, envolve
superar os discursos que pretendem uniformizar a cultura, com
enfoques baseados em modelos únicos.
2.1.2 Situação econômica
60. O Papa , em seu Discurso Inaugural, vê a globalização como um
fenômeno “de relações de nível planetário”, considerando-o “uma
conquista da família humana”, porque favorece o acesso a novas
tecnologias, mercados e finanças. As altas taxas de crescimento de
nossa economia regional e, particularmente, seu desenvolvimento
urbano, não seriam possíveis sem a abertura ao comércio
internacional, sem acesso às tecnologias de última geração, sem a
participação de nossos cientistas e técnicos no desenvolvimento
internacional do conhecimento e sem o alto investimento registrado
nos meio eletrônicos de comunicação. Tudo isso leva também consigo o
surgimento de uma classe média tecnologicamente letrada. Ao mesmo
tempo a globalização se manifesta como a profunda aspiração do
gênero humano à unidade. Não obstante estes avanços, o Papa também
assinala que a globalização “comporta o risco dos grandes monopólios
e de converter o lucro em valor supremo”. Por isso, Bento XVI
enfatiza que “como em todos os campos da atividade humana, a
globalização deve se reger também pela ética, colocando tudo a
serviço da pessoa humana, criada a imagem e semelhança de Deus”25.
61. A globalização é um fenômeno complexo que possui diversas
dimensões (econômicas, políticas, culturais, comunicacionais, etc).
Para sua justa valorização, é necessária uma compreensão analítica e
diferenciada que permita detectar tanto seus aspectos positivos
quanto os negativos. Lamentavelmente, a face mais difundida e de
êxito da globalização é sua dimensão econômica, que se sobrepõe e
condiciona as outras dimensões da vida humana. Na globalização, a
dinâmica do mercado absolutiza com facilidade a eficácia e a
produtividade como valores reguladores de todas as relações humanas.
Este peculiar caráter faz da globalização um processo promotor de
iniqüidades e injustiças múltiplas. A globalização, tal como está
configurada atualmente, não é capaz de interpretar e reagir em
função de valores objetivos que se encontram além do mercado e que
constituem o mais importante da vida humana: a verdade, a justiça, o
amor, e muito especialmente, a dignidade e os direitos de todos,
inclusive daqueles que vivem à margem do próprio mercado.
62. Conduzida por uma tendência que privilegia o lucro e estimula
a competitividade, a globalização segue uma dinâmica de concentração
de poder e de riqueza em mãos de poucos. Concentração não só dos
recursos físicos e monetários, mas sobretudo de informação e dos
recursos humanos, o que produz a exclusão de todos aqueles não
suficientemente capacitados e informados, aumentando as
desigualdades que marcam tristemente nosso continente e que mantêm
na pobreza uma multidão de pessoas. O que existe hoje é a pobreza de
conhecimento e do uso e acesso a novas tecnologias. Por isso é
necessário que os empresários assumam sua responsabilidade de criar
mais fontes de trabalho e de investir na superação desta nova
pobreza.
63. Porém, está claro que o predomínio desta tendência não têm
eliminado a possibilidade de se formar pequenas e médias empresas.
Elas se associam ao dinamismo exportador da economia, prestam-lhe
serviços colaterais ou aproveitam nichos específicos do mercado
interno. No entanto, sua fragilidade econômica e financeira e a
pequena escala em que se desenvolvem, tornam-nas extremamente
vulneráveis frente às taxas de juros, ao risco do câmbio, aos custos
previsionais e a variação nos preços de seus insumos. A debilidade
destas empresas se associa à precariedade do emprego que estão em
condições de oferecer. Sem uma política de proteção específica dos
estados a elas, corre-se o risco de que as economias dos grandes
consórcios termine por se impor como a única forma determinante do
dinamismo econômico.
64. Por isso, frente a esta forma de globalização, sentimos um
forte chamado para promover uma globalização diferente, que esteja
marcada pela solidariedade, pela justiça e pelo respeito aos
direitos humanos, fazendo da América Latina e do Caribe não só o
Continente da esperança, mas também o Continente do amor, como
propôs SS. Bento XVI no Discurso Inaugural desta Conferência.
65. Isto deveria nos levar a contemplar os rostos daqueles que
sofrem. Entre eles estão as comunidades indígenas e afro-americanas
que, em muitas ocasiões, não são tratadas com dignidade e igualdade
de condições; muitas mulheres são excluídas, em razão de seu sexo,
raça ou situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de
baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir em seus estudos
nem de entrar no mercado de trabalho para se desenvolver e
constituir uma família; muitos pobres, desempregados, migrantes,
deslocados, agricultores sem terra, aqueles que procuram sobreviver
na economia informal; meninos e meninas submetidos à prostituição
infantil ligada muitas vezes ao turismo sexual; também as crianças
vítimas do aborto. Milhões de pessoas e famílias vivem na miséria e
inclusive passam fome. Preocupam-nos também os dependentes das
drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas
de enfermidades graves como a malária, a tuberculose e HIV – AIDS,
que sofrem a solidão e se vêem excluídos da convivência familiar e
social. Não nos esqueçamos também dos seqüestrados e aqueles que são
vítimas da violência, do terrorismo, de conflitos armados e da
insegurança na cidade. Também os anciãos que, além de se sentirem
excluídos do sistema produtivo, vêem-se muitas vezes recusados por
sua família como pessoas incômodas e inúteis. Sentimos as dores,
enfim, da situação desumana em que vive a grande maioria dos presos,
que também necessitam de nossa presença solidária e de nossa ajuda
fraterna. Uma globalização sem solidariedade afeta negativamente os
setores mais pobres. Já não se trata simplesmente do fenômeno da
exploração e opressão, mas de algo novo: da exclusão social. Com ela
o pertencimento à sociedade na qual se vive fica afetado, pois já
não se está abaixo, na periferia ou sem poder, mas se está de fora.
Os excluídos não são somente “explorados”, mas “supérfluos” e
“descartáveis”.
66. As instituições financeiras e as empresas transnacionais se
fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo,
debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para
levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas
populações, especialmente quando se trata de investimentos de longo
prazo e sem retorno imediato. As indústrias extrativistas
internacionais e a agroindústria, muitas vezes, não respeitam os
direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais das populações
locais e não assumem suas responsabilidades. Com muita freqüência,
se subordina a preservação da natureza ao desenvolvimento econômico,
com danos á biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água e
de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança
climática. As possibilidades e eventuais problemas da produção de
agrocombustíveis devem ser estudadas, de tal maneira que prevaleça o
valor da pessoa humana e de suas necessidades de sobrevivência. A
América Latina possui os aqüíferos mais abundantes do planeta, junto
com grandes extensões de território selvagem, que são pulmões da
humanidade. Assim se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais
que não são reconhecidos economicamente. A região se vê afetada pelo
aquecimento da terra e a mudança climática provocada principalmente
pelo estilo de vida não sustentável dos países industrializados.
67. A globalização tem celebrado freqüentes Tratados de Livre
Comércio entre países com economias assimétricas, que nem sempre
beneficiam os países mais pobres, ao mesmo tempo, pressiona-se os
países da região com exigências desmedidas em matéria de propriedade
intelectual, a tal ponto que se permitem direitos de patente sobre a
vida em todas as suas formas. Além disso, a utilização de organismos
geneticamente manipulados tem mostrado o que nem sempre a
globalização contribui para o combate contra a fome, nem para o
desenvolvimento rural sustentável.
68. Ainda que se tenha progredido muitíssimo no controle da
inflação e na estabilidade macro-econômica dos países da região,
muitos governos se encontram severamente limitados para o
financiamento de seu orçamento público pelos elevados serviços da
dívida externa26 e interna e que, por outro lado, não contam com
sistemas tributários verdadeiramente eficientes, progressivos e
eqüitativos.
69. A atual concentração de renda e riqueza acontece
principalmente pelos mecanismos do sistema financeiro. A liberdade
concedida aos investimentos financeiros favorecem o capital
especulativo, que não tem incentivos para fazer investimentos
produtivos de longo prazo, mas busca o lucro imediato nos negócios
com títulos públicos, moedas e derivados. No entanto, segundo a
Doutrina Social da Igreja, “o objeto da economia é a formação da
riqueza e seu incremento progressivo, em termos não só
quantitativos, mas qualitativos: tudo é moralmente correto se está
orientado para o desenvolvimento global e solidário do homem e da
sociedade na qual vive e trabalha. O desenvolvimento, na verdade,
não pode se reduzir a um mero processo de acumulação de bens e de
serviços. Ao contrário, a pura acumulação, ainda que para o bem
comum, não é uma condição suficiente para a realização de uma
autêntica felicidade humana”27. A empresa é chamada a prestar uma
contribuição maior na sociedade, assumindo a chamada
responsabilidade social-empresarial, a partir dessa perspectiva.
70. É também alarmante o nível de corrupção nas economias
envolvendo tanto o setor público quanto o setor privado, ao que se
soma uma notável falta de transparência e prestação de contas à
cidadania. Em muitas ocasiões, a corrupção está vinculada ao flagelo
do narcotráfico ou do narconegócio ,e por outro lado, vem destruindo
o tecido social e econômico em regiões inteiras.
71. A população economicamente ativa da região é afetada pelo
subemprego (42%) e o desemprego (9%), e quase a metade está
empregada no trabalho informal. O trabalho formal, por sua vez,
vê-se submetido à precariedade das condições de emprego e à pressão
constante da subcontratação, que traz consigo salários mais baixos e
falta de proteção na área da segurança social, não permitindo a
muitos o desenvolvimento de uma vida digna. Neste contexto, os
sindicatos perdem a possibilidade de defender os direitos dos
trabalhadores. Por outro lado, é possível destacar fenômenos
positivos e criativos para enfrentar esta situação por parte dos
afetados, que vêm estimulando diversas experiências, como por
exemplo, micro-finanças, economia local e solidária e comércio
justo.
72. Os homens do campo, em sua maioria, sofrem por causa da
pobreza, agravada por não terem acesso à terra própria. No entanto,
existem grandes latifúndios em mãos de poucos. Em alguns países,
esta situação tem levado a população a exigir uma Reforma Agrária,
estando atentos aos males que podem lhes ocasionar os Tratados de
Livre Comércio, a manipulação de drogas e outros fatores.
73. Um dos fenômenos mais importantes em nossos países é o
processo de mobilidade humana, em sua dupla expressão de migração e
de itinerância em que milhões de pessoas migram ou se vêem forçadas
a migrar dentro e fora de seus respectivos países. As causas são
diversas e estão relacionadas com a situação econômica, a violência
em suas diversas formas, a pobreza que afeta as pessoas e a falta de
oportunidades para a pesquisa e o desenvolvimento profissional. Em
muitos casos as conseqüência são de enorme gravidade em nível
pessoal, familiar e cultural. A perda do capital humano de milhões
de pessoas, de profissionais qualificados, de pesquisadores e amplos
setores d agricultura, vai nos empobrecendo cada vez mais. A
exploração do trabalho chega, em alguns casos, a gerar condições de
verdadeira escravidão. Acontece também um vergonhoso tráfico de
pessoas, que inclui a prostituição, inclusive de menores. Merece
especial menção a situação dos refugiados, que questiona a
capacidade de acolhida da sociedade e das igrejas. Por outro lado,
no entanto, a remessa de divisas dos emigrados a seus países de
origem tem se tornado uma importante e, às vezes, insubstituível
fonte de recursos para diversos países da região, ajudando o
bem-estar e à mobilidade social ascendente daqueles que conseguem
participar com êxito neste processo.
2.1.3 Dimensão sócio-política
74. Constatamos um certo progresso democrático que se demonstra
em diversos processos eleitorais. No entanto, vemos com preocupação
o acelerado avanço de diversas formas de regressão autoritária por
via democrática que, em certas ocasiões, resultam em regimes de
corte neo-populista. Isto indica que não basta uma democracia
puramente formal, fundada em procedimentos eleitorais honestos, mas
que é necessário uma democracia participativa e baseada na promoção
e respeito dos direitos humanos. Uma democracia sem valores como os
mencionados torna-se facilmente uma ditadura e termina traindo o
próprio povo.
75. Com a presença da Sociedade Civil assumindo uma atitude mais
protagonista e a irrupção de novos atores sociais como são os
indígenas, os afro-americanos, as mulheres, os profissionais, uma
extensa classe média e os setores marginalizados organizados, está
se fortalecendo a democracia participativa e estão se criando
maiores espaços de participação política. Estes grupos estão tomando
consciência do poder que têm em suas mãos e da possibilidade de
gerarem mudanças importantes para a conquista de políticas públicas
mais justas, que revertam sua situação de exclusão. Neste plano,
percebe-se também uma crescente influência de organismos das nações
unidas e de Organizações Não-Governamentais de caráter internacional
que nem sempre ajustam suas recomendações a critérios éticos. Não
faltam também atuações que radicalizam as posições, fomentam a
conflitividade e a polarização extremas e colocam esse potencial a
serviço de interesses alheios aos seus, o que, ao final, pode
frustrar e reverter negativamente suas esperanças.
76. Depois de uma época de debilidade dos Estados devido a
aplicação de ajustes estruturais na economia, por recomendação de
organismos financeiros internacionais, olha-se, atualmente, com bons
olhos um esforço por parte dos Estados em definir e aplicar
políticas públicas nos campos da saúde, educação, segurança
alimentar, previdência social, acesso à terra e à moradia, promoção
eficaz da economia para a criação de empregos e leis que favorecem
as organizações solidárias. Tudo isto mostra que não pode existir
democracia verdadeira e estável sem justiça social, sem divisão real
de poderes e sem a vigência do Estado de direito28.
77. Cabe assinalar como um grande fator negativo, o
recrudescimento da corrupção na sociedade e no Estado em boa parte
da região, envolvendo os poderes legislativos e executivo em todos
os seus níveis, alcançando também o sistema judicial que, muitas
vezes, inclina seu juízo a favor dos poderosos e gera impunidade, o
que coloca em sério risco a credibilidade das instituições públicas
e aumenta a desconfiança do povo, fenômeno que se une a um profundo
desprezo pela legalidade. Em amplos setores da população e
especialmente entre os jovens cresce o desencanto pela política e
particularmente pela democracia, pois as promessas de uma vida
melhor e mais justa não se cumpriram ou se cumpriram só pela metade.
Neste sentido, esquece-se de que a democracia e a participação
política são fruto da formação que se faz realidade somente quando
os cidadãos são conscientes de seus direitos fundamentais e de seus
deveres correspondentes.
78. A vida social em convivência harmônica e pacífica está se
deteriorando gravemente em muitos países da América Latina e do
Caribe pelo crescimento da violência, que se manifesta em roubos,
assaltos, seqüestros, e o que é mais grave, em assassinatos que a
cada dia destroem mais vidas humanas e enchem de dor as famílias e a
sociedade inteira. A violência se reveste de várias formas e tem
diversos agentes: o crime organizado e o narco-tráfico, grupos
paramilitares, violência comum sobretudo na periferia das grandes
cidades, violência de grupos de jovens e crescente violência
intra-familiar. Suas causas são múltiplas: a idolatria elo dinheiro,
o avanço de uma ideologia individualista e utilitarista, a falta de
respeito pela dignidade de cada pessoa, a deterioração do tecido
social, a corrupção inclusive nas forças de ordem e a falta de
políticas públicas de equidade social.
79. Alguns parlamentos ou assembléias legislativas aprovam leis
injustas contra os direitos humanos e a vontade popular,
precisamente por não estar perto de seus representados, nem saber
escutar e dialogar com os cidadãos, mas também por ignorância, por
falta de acompanhamento e porque muitos cidadãos abdicam de seu
dever de participar na vida pública.
80. Em alguns países tem aumentado a repressão, a violência dos
direitos humanos, inclusive o direito à liberdade religiosa, a
liberdade de expressão e a liberdade de ensino, assim como o
desprezo à objeção de consciência.
81. Ainda que alguns países tenham conseguido acordos de paz
superando dessa forma conflitos antigos, em outros, continua a luta
armada com todas as suas seqüelas (mortes violentas, violações dos
Direitos Humanos, ameaças, crianças na guerra, seqüestros, etc.),
sem que se possa observar soluções em curto prazo. A influência do
narco-negócio nestes grupos dificulta ainda mais as possíveis
soluções.
82. Na América Latina e no Caribe vê-se com bons olhos uma
crescente vontade de integração regional com acordos multilaterais,
envolvendo um número crescente de países que geram suas próprias
regras no campo do comércio, dos serviços e das patentes. À origem
comum unem-se a cultura, a língua e a religião que podem contribuir
para que a integração não seja só de mercados, mas de instituições
civis e de pessoas. Também é positiva a globalização da justiça, no
campo dos direitos humanos e dos crimes contra a humanidade que
permitirá a todos viver progressivamente sob normas iguais chamadas
a proteger sua dignidade, sua integridade e sua vida.
2.1.4 Biodiversidade, ecologia, Amazônia e Antártida
83. A América Latina é o Continente que possui uma das maiores
biodiversidades do planeta e uma rica sócio diversidade representada
por seus povos e culturas. Estes possuem um grande acervo de
conhecimentos tradicionais sobre a utilização dos recursos naturais,
assim como sobre o valor medicinal de plantas e outros organismos
vivos, muitos dos quais formam a base de sua economia. Tais
conhecimentos são atualmente objeto de apropriação intelectual
ilícita, sendo patenteados por indústrias farmacêuticas e de
biogenética, gerando vulnerabilidade dos agricultores e suas
famílias que dependem desses recursos para sua sobrevivência.
84. Nas decisões sobre as riquezas da biodiversidade e da
natureza as populações tradicionais têm sido praticamente excluídas.
A natureza foi e continua sendo agredida. A terra foi depredada. As
águas estão sendo tratadas como se fossem uma mercadoria negociável
pelas empresas, além de haver sido transformadas em um bem disputado
pelas grandes potências. Um exemplo muito importante nesta situação
é a Amazônia29.
85. Em seu discurso aos jovens, no Estádio do Pacaembu, em São
Paulo, o Papa Bento XVI chamou a atenção sobre a “devastação
ambiental da Amazônia e as ameaças à dignidade humana de seus
povos”30 e pediu aos jovens “um maior compromisso nos mais diversos
espaços de ação31”.
86. A crescente agressão ao meio-ambiente pode servir de pretexto
para propostas de internacionalização da Amazônia, que só servem aos
interesses econômicos das corporações internacionais. A sociedade
panamazõnica é pluriétnica, pluricultural e plurireligiosa. Nela,
está-se intensificando, cada vez mais, a disputa pela ocupação do
território. As populações tradicionais da região querem que seus
territórios sejam reconhecidos e legalizados.
87. Além disso, constatamos o retrocesso das geleiras em todo o
mundo: o degelo do Ártico cujo impacto já está se vendo na flora e
fauna desse ecossistema; também o aquecimento global se faz sentir
no estrondoso crepitar dos blocos de gelo ártico que reduzem a
cobertura glacial do Continente e que regula o clima do mundo.
Profeticamente, há 20 anos, desde a fronteira das Américas, João
Paulo II assinalou: “Desde o Cone Sul do Continente Americano e
frente aos ilimitados espaços da Antártida, lanço um chamado a todos
os responsáveis de nosso planeta para proteger e conservar a
natureza criada por Deus: não permitamos que nosso mundo seja uma
terra cada vez mais degradada e degradante”32.
2.1.5 Presença dos povos indígenas e afro-americanos na Igreja
88. Os indígenas constituem a população mais antiga do
Continente. Estão na raiz primeira da identidade latino-americana e
caribenha. Os afro-americanos constituem outra raiz que foi
arrancada da África e trazida para cá como gente escravizada. A
terceira raiz é a população pobre que migrou da Europa a partir do
século XVI, em busca de melhores condições de vida e o grande fluxo
de imigrantes de todo o mundo a partir de meados do século XIX. De
todos estes grupos e de suas correspondentes culturas se formou a
mestiçagem que é a base social e cultural de nossos povos
latino-americanos e caribenhos, como já o reconheceu a III
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano celebrada em Puebla,
México33.
89. Os indígenas e afro-americanos são, sobretudo, “outros”
diferentes que exigem respeito e reconhecimento. A sociedade tende a
menosprezá-los, desconhecendo o porquê de suas diferenças. Sua
situação social está marcada pela exclusão e pela pobreza. A Igreja
acompanha os indígenas e afro-americanos nas lutas por seus
legítimos direitos.
90. Hoje, os povos indígenas e afros estão ameaçados em sua
existência física, cultural e espiritual; em seus modos de vida; em
suas identidades; em sua diversidade; em seus territórios e
projetos. Algumas comunidades indígenas se encontram fora de suas
terras porque elas foram invadidas e degradadas, ou não tem terras
suficientes para desenvolver suas culturas. Sofrem graves ataques a
sua identidade e sobrevivência, pois a globalização econômica e
cultural coloca em perigo sua própria existência como povo
diferentes. Sua progressiva transformação cultural provoca o rápido
desaparecimento de algumas línguas e culturas. A migração, forçada
pela pobreza, está influindo profundamente na mudança de seus
costumes, de relacionamentos e inclusive de religião.
91. Os indígenas e afro-americanos emergem agora na sociedade e
na Igreja. Este é um “kairós” para aprofundar o encontro da Igreja
com estes setores humanos que reivindicam o reconhecimento pleno de
seus direitos individuais e coletivos, serem levados em consideração
na catolicidade com sua cosmovisão, seus valores e suas identidades
particulares, para viver um novo Pentecostes eclesial.
92. Já, em Santo Domingo, os pastores reconheciam que “os povos
indígenas cultivam valores humanos de grande significado”34; valores
que “a Igreja defende... diante da força dominadora das estruturas
de pecado manifestas na sociedade moderna”35; “são possuidores de
inumeráveis riquezas culturais, que estão na base de nossa
identidade atual”36; e, a partir da perspectiva da fé, “estes
valores e convicções são fruto de ‘sementes do Verbo’, que já
estavam presentes e operavam em seus antepassados”37.
93. Entre eles podemos assinalar: “abertura à ação de Deus pelos
frutos da terra, o caráter sagrado da vida humana, a valorização da
família, o sentido de solidariedade e a co-responsabilidade no
trabalho comum, a importância do cultual, a crença em uma vida ultra
terrena”38. Atualmente, o povo tem enriquecido amplamente estes
valores através da evangelização e os tem desenvolvido em múltiplas
formas de autêntica religiosidade popular.
94. Como Igreja que assume a causa dos pobres, estimulamos a
participação dos indígenas e afro-americanos na vida eclesial Vemos
com esperança o processo de inculturação discernido à luz do
magistério. É prioritário fazer traduções católicas da Bíblia e dos
textos litúrgicos nos idiomas desses povos. Necessita-se,
igualmente, promover mais as vocações e os ministérios ordenados
procedentes destas culturas.
95. Nosso serviço pastoral à vida plena dos povos indígenas exige
que anunciemos a Jesus Cristo e a Boa Nova do Reino de Deus,
denunciemos as situações de pecado, as estruturas de morte, a
violência e as injustiças internas e externas e fomentemos o diálogo
intercultural, interreligioso e ecumênico. Jesus Cristo é a
plenitude da revelação para todos os povos e o centro fundamental de
referência para discernir os valores e as deficiências de todas as
culturas, incluindo as indígenas. Por isso, o maior tesouro que
podemos oferecer a eles é que cheguem ao encontro com Jesus Cristo
ressuscitado, nosso Salvador. Os indígenas que já receberam o
Evangelho, como discípulos e missionários de Jesus Cristo, são
chamados a viver com imensa alegria sua realidade cristã, a explicar
a razão de sua fé em meio a suas comunidades e a colaborar
ativamente para que nenhum povo indígena da América Latina renegue
sua fé cristã, mas ao contrário, sintam que em Cristo encontram o
sentido pleno de sua existência.
96. A história dos afro-americanos tem sido atravessada por uma
exclusão social, econômica, política e, sobretudo, racial, onde a
identidade étnica é fator de subordinação social. Atualmente, são
discriminados na inserção do trabalho, na qualidade e conteúdo da
formação escolar, nas relações cotidianas e, além disso, existe um
processo de ocultamento sistemático de seus valores, história,
cultura e expressões religiosas. Permanece, em alguns casos, uma
mentalidade e um certo olhar de menor respeito em relação aos
indígenas e afro-americanos. Desse modo, descolonizar as mentes, o
conhecimento, recuperar a memória histórica, fortalecer os espaços e
relacionamentos inter-culturais, são condições para a afirmação da
plena cidadania destes povos.
97. A realidade latino-americana conta com comunidades
afro-americanas muito vivas que participam ativa e criativamente na
construção deste continente. Os movimentos pela recuperação das
identidades, dos direitos dos cidadãos e contra o racismo e os
grupos alternativos de economias solidárias, fazem das mulheres e
homens negros sujeitos construtores de sua história e de uma nova
história que se vai desenhando na atualidade latino-americana e
caribenha. Esta nova realidade se baseia em relações inter-culturais
onde a diversidade não significa ameaça, não justifica hierarquias
de um poder sobre outros, mas sim diálogo a partir de visões
culturais diferentes de celebração, de inter-relacionamento e de
reavivamento da esperança.
2.2 Situação de nossa Igreja nesta hora histórica de desafios
98. A Igreja católica na América Latina e no Caribe, apesar das
deficiências e ambigüidades de alguns de seus membros, tem dado
testemunho de Cristo, anunciado seu Evangelho e oferecido seu
serviço de caridade principalmente aos mais pobres, no esforço por
promover sua dignidade e também no empenho de promoção humana nos
campos da saúde, da economia solidária, da educação, do trabalho, do
acesso à terra, da cultura, da habitação e assistência, entre
outros. Com sua voz, unida à de outras instituições nacionais e
mundiais, tem ajudado a dar orientações prudentes e a promover a
justiça, os direitos humanos e a reconciliação dos povos. Isto tem
permitido que a Igreja seja reconhecida socialmente em muitas
ocasiões como uma instância de confiança e credibilidade. Seu
empenho a favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada
ser humano tem ocasionado, em muitos casos, a perseguição e,
inclusive, a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos
testemunhas da fé. Queremos recordar o testemunho valente de nossos
santos e santas, e aqueles que, inclusive sem haver sido
canonizados, tem vivido com radicalidade o evangelho e oferecido sua
vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo.
99. Os esforços pastorais orientados para o encontro com Jesus
Cristo vivo deram e continuam dando frutos. Entre outros, destacamos
os seguintes:
a) Devido a animação bíblica da pastoral, aumenta o conhecimento
da Palavra de Deus e do amor por ela. Graças à assimilação do
Magistério da Igreja e a uma melhor formação de generosos
catequistas, a renovação da Catequese tem produzido fecundos
resultados em todo o Continente, chegando inclusive a países da
América do Norte, Europa e Ásia, para onde muitos latino-americanos
e caribenhos têm emigrado.
b) A renovação litúrgica acentuou a dimensão celebrativa e
festiva da fé cristã centrada no mistério pascal de Cristo Salvador,
em particular na Eucaristia. Crescem as manifestações da
religiosidade popular, especialmente a piedade eucarística e a
devoção mariana. Esforços têm sido realizados para inculturar a
liturgia nos povos indígenas e afro-americanos. Estão sendo
superados os riscos de reduzir a Igreja a sujeito político, com um
melhor discernimento dos impactos sedutores das ideologias. Têm-se
fortalecido a responsabilidade e a vigilância com relação às
verdades da Fé, ganhando em profundidade e serenidade de comunhão.
c) Nosso povo tem grande estima pelos sacerdotes. Reconhece a
santidade de muitos deles, como também seu testemunho de vida, seu
trabalho missionário e sua criatividade pastoral, particularmente
daqueles que estão em lugares distantes ou em contextos de maior
dificuldade. Muitas de nossas Igrejas contam com uma pastoral
sacerdotal com experiências concretas de vida em comum e de uma
retribuição do clero mais justa. Em algumas Igrejas desenvolve-se o
diaconato permanente. Contam também com ministérios confiados aos
leigos e outros serviços pastorais, como delegados da Palavra,
animadores de assembléia e de pequenas comunidades, entre elas, as
comunidades eclesiais de base, os movimentos eclesiais e um grande
número de pastorais específicas. Faz-se um grande esforço pela
formação em nossos Seminários, nas casas de formação para a vida
consagrada e nas escolas para o diaconato permanente. É
significativo o testemunho da vida consagrada, sua participação na
ação pastoral e sua presença em situações de pobreza, de risco e de
fronteira. A Igreja estimula com esperança o incremento de vocações
para a vida contemplativa masculina e feminina.
d) Ressalta a abnegada entrega de tantos missionários e
missionárias que, até o dia de hoje, tem desenvolvido uma valiosa
obra evangelizadora e de promoção humana em todos os nossos povos,
com multiplicidade de obras e serviços. Desse modo é reconhecido o
trabalho de numerosos sacerdotes, consagradas e consagrados, leigos
e leigas que, a partir do nosso Continente, participam da missão ad
gentes.
e) Crescem os esforços de renovação pastoral nas paróquias,
favorecendo um encontro com Cristo vivo mediante diversos métodos de
nova evangelização que se transformam em comunidade de comunidades
evangelizadas e missionárias. Contata-se em alguns lugares um
florescimento de comunidades eclesiais de base, segundo o critério
das Conferências Gerais anteriores, em comunhão com os Bispos e
fiéis ao Magistério da Igreja39. Valoriza-se a presença e o
crescimento dos movimentos eclesiais e novas comunidades que
difundem sua riqueza carismática, educativa e evangelizadora. Tem-se
tomado consciência da importância da pastoral Familiar, da Infância
e Juvenil.
f) A Doutrina Social da Igreja constitui uma riqueza sem preço
que tem animado o testemunho e a ação solidária dos leigos e leigas,
aqueles que se interessam cada vez mais por sua formação teológica
como verdadeiros missionários da caridade, e se esforçam por
transformar de maneira efetiva o mundo segundo Cristo. Hoje,
inumeráveis iniciativas laicas no âmbito social, cultural, econômico
e político, deixam-se inspirar pelos princípios permanentes, pelos
critérios de juízo e pelas diretrizes de ação provenientes da
Doutrina Social da Igreja. Valoriza-se o desenvolvimento que tem
tido a Pastoral Social, como também a ação da Cáritas em seus vários
níveis e a riqueza do voluntariado, nos mais diversos apostolados
com incidência social. Tem-se desenvolvido a pastoral da comunicação
social e mais do que nunca a Igreja tem contado com mais meios de
comunicação para a evangelização da cultura, neutralizando em parte
outros grupos religiosos que ganham constantemente adeptos, usando
com perspicácia o rádio e a televisão. Temos rádios, televisão,
cinema, jornais, internet, páginas de web e a RIIAL que nos enchem
de esperança.
g) A diversificação da organização eclesial, com a criação de
muitas comunidades, novas jurisdições e organismos pastorais,
permitiu que muitas Igrejas locais avançassem na estruturação de uma
Pastoral Orgânica, para servir melhor às necessidades dos fiéis. Não
com a mesma intensidade, em todas as Igrejas, tem-se desenvolvido o
diálogo ecumênico. Também o diálogo interreligioso, quando segue as
normas do Magistério, pode enriquecer os participantes em diversos
encontros40. Em outros lugares, tem-se criado escolas de ecumenismo
ou de colaboração ecumênica em assuntos sociais e outras
iniciativas. Manifesta-se, como reação ao materialismo, uma busca de
espiritualidade, de oração e de mística que expressa fome e sede de
Deus. Por outro lado, a valorização da ética é um sinal dos tempos
que indica a necessidade de superar o hedonismo, a corrupção e o
vazio dos valores. Alegra-nos, além disso, o profundo sentimento de
solidariedade que caracteriza nossos povos e a prática de
compartilhar e de ajuda mútua.
100. Apesar dos aspectos positivos que nos alegram na esperança,
observamos sombras, entre as quais mencionamos as seguintes:
a) Para a Igreja Católica, a América Latina e o Caribe são de
grande importância, por seu dinamismo eclesial, por sua criatividade
e porque 43% de todos os seus fiéis vivem nesses locais; no entanto,
observamos que o crescimento percentual da Igreja não segue o mesmo
ritmo que o crescimento populacional. Na média, o aumento do clero,
e sobretudo, das religiosas, distancia-se cada vez mais do
crescimento populacional em nossa região41.
b) Lamentamos, seja algumas tentativas de voltar a um certo tipo
de eclesiologia e espiritualidade contrárias à renovação do Concílio
Vaticano II42, seja algumas leituras e aplicações reducionistas da
renovação conciliar; lamentamos a ausência de uma autêntica
obediência e do exercício evangélico da autoridade, das
infidelidades à doutrina, à moral e à comunhão, nossas débeis
vivências da opção preferencial pelos pobres, não poucas recaídas
secularizantes na vida consagrada influenciada por uma antropologia
meramente sociológica e não evangélica. Tal como manifestou o Santo
Padre no Discurso Inaugural de nossa Conferência: “percebe-se um
certo enfraquecimento da vida cristã no conjunto da sociedade e do
próprio pertencimento à Igreja Católica”43.
c) Constatamos o escasso acompanhamento dado aos fiéis leigos em
suas tarefas de serviço à sociedade, particularmente quando assumem
responsabilidades nas diversas estruturas de ordem temporal.
Percebemos uma evangelização com pouco ardor e sem novos métodos e
expressões, uma ênfase no ritualismo sem o conveniente caminho de
formação, descuidando de outras tarefas pastorais. De igual forma,
preocupa-nos uma espiritualidade individualista. Verificamos, deste
modo, uma mentalidade relativista no ético e no religioso, a falta
de aplicação criativa do rico patrimônio que contêm a Doutrina
Social da Igreja e, em certas ocasiões, uma compreensão limitada do
caráter secular que constitui a identidade própria e específica dos
fiéis leigos.
d) Na evangelização, na catequese e, em geral, na pastoral,
persistem também linguagens pouco significativas para a cultura
atual e em particular, para os jovens. Muitas vezes as linguagens
utilizadas parecem não levar em consideração a mutação dos códigos
existencialmente relevantes nas sociedades influenciadas pela
pós-modernidade e marcadas por um amplo pluralismo social e
cultural. As mudanças culturais dificultam a transmissão da Fé por
parte da família e da sociedade. Frente a isso, não se vê uma
presença importante da Igreja na geração de cultura, de modo
especial no mundo universitário e nos meios de comunicação.
e) O número insuficiente de sacerdotes e sua não eqüitativa
distribuição impossibilitam que muitíssimas comunidades possam
participar regularmente na celebração da Eucaristia. Recordando que
a Eucaristia faz à Igreja, preocupa-nos a situação de milhares
destas comunidades privadas da Eucaristia dominical por longos
períodos de tempo. A isto se acrescenta a relativa escassez de
vocações ao ministério e à vida consagrada. Falta espírito
missionário em membros do clero, inclusive em sua formação. Muitos
católicos vivem e morrem sem assistência da Igreja, à qual pertencem
pelo batismo. Enfrentam-se dificuldades para assumir a sustentação
econômica das estruturas pastorais. Falta solidariedade na comunhão
de bens no interior das igrejas locais e entre elas. Em muitas das
nossas Igrejas locais não se assume suficientemente a pastoral
penitenciária, nem a pastoral de menores infratores e em situações
de risco. É insuficiente o acompanhamento pastoral para os migrantes
e itinerantes. Alguns movimentos eclesiais nem sempre se integram
adequadamente na pastoral paroquial e diocesana; por sua vez,
algumas estruturas eclesiais não são suficientemente abertas para
acolhê-los.
f) Nas últimas décadas vemos com preocupação, por um lado, que
numerosas pessoas perdem o sentido transcendental de suas vidas e
abandonam as práticas religiosas e, por outro lado, que um número
significativo de católicos estão abandonando a Igreja para entrar em
outros grupos religiosos. Ainda que este seja um problema real em
todos os países latino-americanos e caribenhos, não existe
homogeneidade no que se refere a suas dimensões e sua diversidade.
g) Dentro do novo pluralismo religioso em nosso continente, não
se tem diferenciado suficientemente os cristãos que pertencem a
outras igrejas ou comunidades eclesiais, tanto por sua doutrina como
por suas atitudes, dos que fazem parte da grande diversidade de
grupos cristãos (inclusive pseudo-cristãos) que se tem instalado
entre nós. Isto porque não é adequado englobar a todos em uma só
categoria de análise. Muitas vezes não é fácil o diálogo ecumênico
com grupos cristãos que atacam a Igreja Católica com insistência.
h) Reconhecemos que, ocasionalmente, alguns católicos tem se
afastado do Evangelho, que requer um estilo de vida mais simples,
austero e solidário, mais fiel à verdade e à caridade, como também
nos tem faltado valentia, persistência e docilidade à graça de
prosseguir, fiel à Igreja de sempre, a renovação iniciada pelo
Concílio Vaticano II, impulsionada pelas Conferências Gerais
anteriores, e para assegurar o rosto latino-americano e caribenho de
nossa Igreja. Reconhecemo-nos como comunidade de pobres pecadores,
mendicantes da misericórdia de Deus, congregada, reconciliada, unida
e enviada pela força da Ressurreição de seu Filho e a graça de
conversão do Espírito Santo.
SEGUNDA PARTE
A VIDA DE JESUS CRSITO NOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
CAPÍTULO 3
A ALEGRIA DE SERMOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS PARA ANUNCIAR O
EVANGELHO DE JESUS CRISTO
101. Neste momento, com incertezas no coração, perguntamo-nos com
Tomé: “Como vamos saber o caminho?” (Jo 14,5). Jesus nos responde
com uma proposta provocadora: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”
(Jo 14,6). Ele é o verdadeiro caminho para o Pai., quem tanto amou
ao mundo que deu a seu Filho único, para que todo aquele que nele
creia tenha a vida eterna (cf. Jo 3,16). Esta é a vida eterna: “que
te conheçam a ti o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo teu
enviado” (Jo 17,3). A fé em Jesus como o Filho do Pai é a porta de
entrada para a Vida. Como discípulos de Jesus, confessamos nossa fé
com as palavras de Pedro: “Tuas palavras dão vida eterna” (Jo 6,68);
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).
102. Jesus é o Filho de Deus, a Palavra feito carne (cf. Jo
1,14), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, prova do amor de Deus aos
homens. Sua vida é uma entrega radical de si mesmo a favor de todas
as pessoas, consumada definitivamente em sua morte e ressurreição.
Por ser o Cordeiro de Deus, Ele é o Salvador. Sua paixão, morte e
ressurreição possibilita a superação do pecado e a vida nova para
toda a humanidade. N’Ele, o Pai se faz presente, porque quem conhece
o Filho conhece o Pai (cf. Jo 14,7).
103. Como discípulos de Jesus reconhecemos que Ele é o primeiro e
maior evangelizador enviado por Deus (cf. Lc 4,44) e, ao mesmo
tempo, o Evangelho de Deus (cf. Rm 1,3). Cremos e anunciamos “a boa
nova de Jesus, Messias, Filho de Deus” (Mc 1,1). Como filhos
obedientes á voz do Pai queremos escutar a Jesus (cf. Lc 9,35)
porque Ele é o único Mestre (cf. Mt 23,8). Como seus discípulos
sabemos que suas palavras são Espírito e Vida (cf. Jo 6,63.68). Com
a alegria da fé somos missionários para proclamar o Evangelho de
Jesus Cristo e, n’Ele, a boa nova da dignidade humana, da vida, da
família, do trabalho, da ciência e da solidariedade com a criação.
3.1. A boa nova da dignidade humana
104. Bendizemos a Deus pela dignidade da pessoa humana, criada a
sua imagem e semelhança. Ele nos criou livres e nos fez sujeitos de
direitos e deveres em meios à criação. Agradecemos-lhe por nos
associar ao aperfeiçoamento do mundo, dando-nos inteligência e
capacidade para amar; pela dignidade, que recebemos também com a
tarefa e o dever de proteger, cultivar e promover. Bendizemos a Deus
pelo dom da fé que nos permite viver em aliança com Ele até o
momento de compartilhar a vida eterna. Bendizemos a Deus por nos
fazer suas filhas e filhos em Cristo, por nos haver redimido com o
preço de seu sangue e pelo relacionamento permanente que estabelece
conosco, que é fonte de nossa dignidade absoluta, inegociável e
inviolável. Se o pecado deteriorou a imagem de Deus no homem e feriu
sua condição, a boa nova, que é Cristo, o redimiu e o restabeleceu
na graça (cf. Rm 5,12-21).
105. Louvamos a Deus pelos homens e mulheres da América Latina e
do Caribe que, movidos por sua fé, tem trabalhado incansavelmente na
defesa da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e
marginalizados. Em seu testemunho, levado até a entrega total,
resplandece a dignidade do ser humano.
3.2 A boa nova da vida
106. Louvamos a Deus pelo dom maravilhoso da vida e por aqueles
que a honram e a dignificam ao colocá-la a serviço dos demais; pelo
espírito alegre de nossos povos que amam a música, a dança, a
poesia, a arte, o esporte e cultivam uma firme esperança em meio a
problemas e lutas. Louvamos a Deus porque, sendo nós pecadores, Ele
nos mostrou seu amor reconciliando-nos consigo pela morte de seu
Filho na cruz. Louvamos a Deus porque Ele continua derramando seu
amor em nós pelo Espírito Santo e nos alimentando com a Eucaristia,
pão da vida (cf. Jo 6,35). A Encíclica “Evangelho da Vida”, de João
Paulo II, ilumina o grande valor da vida humana a qual devemos
cuidar e pela qual continuamente devemos louvar a Deus.
107. Bendizemos ao Pai pelo dom de seu Filho Jesus Cristo “rosto
humano de Deus e rosto divino do homem”44. “Na realidade, tão só o
mistério do Verbo encarnado explica verdadeiramente o mistério do
homem. Cristo, na própria revelação do mistério do Pai e de seu
amor, manifesta plenamente o homem ao próprio homem e descobre sua
altíssima vocação”45.
108. Bendizemos ao Pai porque, mesmo entre dificuldades e
incertezas, todo homem aberto sinceramente à verdade e ao bem comum,
pode chegar a descobrir na lei natural escrita em seu coração (cf.
Rm 2,14-150, o valor sagrado da vida humana desde seu início até seu
fim natural e afirmar o direito de cada ser humano de ver respeitado
totalmente este seu bem primário. “A convivência humana e a própria
comunidade política”46 se fundamenta no reconhecimento desse
direito.
109. Diante de uma vida sem sentido, Jesus nos revela a vida
íntima de Deus em seu mistério mais elevado, a comunhão trinitária.
É tal o amor de Deus, que faz do homem, peregrino neste mundo, sua
morada: “Viremos a ele e viveremos nele” (Jo 14,23). Diante do
desespero de um mundo sem Deus, que só vê na morte o final
definitivo da existência, Jesus nos oferece a ressurreição e a vida
eterna na qual deus será tudo em todos (cf. 1 Cor 15,28). Diante da
idolatria dos bens terrenos, Jesus apresenta a vida em Deus como
valor supremo: “de que vale alguém ganhar o mundo e perder a sua
vida?” (Mc 8,36)47.
110. Diante do subjetivismo hedonista, Jesus propõe entregar a
vida para ganha-la, porque “quem aprecia sua vida terrena,
perdê-la-á” (Jo 12,25). É próprio do discípulo de Jesus gastar sua
vida como sal da terra e luz do mundo. Diante do individualismo,
Jesus convoca a viver e caminhar juntos. A vida cristã só se
aprofunda e se desenvolve na comunhão fraterna. Jesus nos disse “um
é seu mestre e todos vocês são irmãos” (Mt 23,8). Diante da
despersonalização, Jesus ajuda a construir identidades integradas.
111. A própria vocação, a própria liberdade e a própria
originalidade são dons de Deus para a plenitude e a serviço do
mundo.
112. Diante da exclusão, Jesus defende os direitos dos fracos e a
vida digna de todo ser humano. De seu Mestre, o discípulo tem
aprendido a lutar contra toda forma de desprezo da vida e de
exploração da pessoa humana48. Só o Senhor é autor e dono da vida. O
ser humano, sua imagem vivente, é sempre sagrado, desde a sua
concepção até a sua morte natural; em todas as circunstâncias e
condições de sua vida. Diante das estruturas de morte, Jesus faz
presente a vida plena. “Eu vim para dar vida aos homens e para que a
tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso, cura os enfermos,
expulsa os demônios e compromete os discípulos na promoção da
dignidade humana e de relacionamentos sociais fundados na justiça.
113. Diante da natureza ameaçada, Jesus que conhecia o cuidado do
Pai pelas criaturas que Ele alimenta e embeleza (cf Lc 12,28),
convoca-nos a cuidar da terra para que ela ofereça abrigo e sustento
a todos os homens (cf. Gn 1,29; 2,15).
3.3 A boa nova da família
114. Proclamamos com alegria o valor da família na América Latina
e no Caribe. O Papa Bento XVI afirma que a família, “patrimônio da
humanidade, constitui um dos tesouros mais importantes dos povos
latino-americanos e caribenhos. Ela tem sido e é escola da fé,
palestra de valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana
nasce e se acolhe generosa e responsavelmente... A família é
insubstituível para a serenidade pessoal e para a educação de seus
filhos”49.
115. Agradecemos a Cristo que nos revela que “Deus é amor e vive
em si mesmo um mistério pessoal de amor”50 e, optando por viver em
família em meio a nós, eleva-a à dignidade de ‘Igreja Doméstica’.
116. Bendizemos a Deus por haver criado o ser humano, homem e
mulher, ainda que hoje se queira confundir esta verdade: “Criou Deus
os seres humanos a sua imagem; a imagem de Deus os criou, homem e
mulher os criou” (Gn 1,27). Pertence à natureza humana que o homem e
a mulher busquem um no outro sua reciprocidade e complementaridade51.
117.O fato de sermos amados por Deus enche-nos de alegria. O amor
humano encontra sua plenitude quando participa do amor divino, do
amor de Jesus que se entrega solidariamente por nós em seu amor
pleno até o fim (cf. Jo 13,1; 15,9). O amor conjugal é a doação
recíproca entre um homem e uma mulher, os esposos: é fiel e
exclusivo até a morte e fecundo, aberto á vida e á educação dos
filhos, assemelhando-se ao amor fecundo da Santíssima Trindade52. O
amor conjugal é assumido no Sacramento do Matrimônio para significar
a união de Cristo com sua Igreja. Por isso, na graça de Jesus Cristo
ele encontra sua purificação, alimento e plenitude ( Ef 5,23-33).
118. No seio de uma família, a pessoa descobre os motivos e o
caminho para pertencer á família de Deus. Dela, recebemos a vida que
é a primeira experiência do amor e da fé. O grande tesouro da
educação dos filhos na fé consiste na experiência de uma vida
familiar que recebe a fé, conserva-a, celebra-a, transmite-a e dá
testemunha dela. Os pais devem tomar nova consciência de sua alegre
e irrenunciável responsabilidade na formação integral de seus
filhos.
119. Deus ama nossas famílias, apesar de tantas feridas e
divisões. A presença invocada de Cristo através da oração em família
nos ajuda a superar os problemas, a curar as feridas e abre caminhos
de esperança. Muitos vazios de lar podem ser atenuados através de
serviços prestados pela comunidade eclesial, família de famílias.
3.4 A boa nova da atividade humana
3.4.1 O trabalho
120. Louvamos a Deus porque na beleza da criação, que é obra de
suas mãos, resplandece o sentido do trabalho como participação de
sua tarefa criadora e como serviço aos irmãos e irmãs. Jesus, o
carpinteiro (cf. Mc 6,3), dignificou o trabalho e o trabalhador e
recorda que o trabalho não é um mero apêndice da vida, mas que
“constitui uma dimensão fundamental da existência do homem na
terra”53, pela qual o homem e a mulher se realizam como seres
humanos54. O trabalho garante a dignidade e a liberdade do homem, e
é provavelmente “a chave essencial de toda ‘a questão social’”55.
121. Damos graças a Deus porque sua palavra nos ensina que,
apesar do cansaço que muitas vezes acompanha o trabalho, o cristão
sabe que este, unido à oração, serve não só para o progresso
terreno, mas também para a santificação pessoal e a construção do
Reino de Deus56. O desemprego, a injusta remuneração pelo trabalho e
o viver sem querer trabalhar são contrários ao desígnio de Deus. O
discípulo e o missionário, respondendo a este desígnio, promovem a
dignidade do trabalhador e do trabalho, o justo reconhecimento de
seus direitos e de seus deveres, desenvolvem a cultura do trabalho e
denunciam toda injustiça. A guarda do domingo, como dia de descanso,
da família e do culto ao Senhor, garante o equilíbrio entre trabalho
e repouso. Cabe à comunidade criar estruturas que ofereçam um
trabalho ás pessoas deficientes, segundo suas possibilidades57.
122. Louvamos a Deus pelos talentos, pelo estudo e pela decisão
de homens e mulheres para promover iniciativas e projetos geradores
de trabalho e produção, que elevam a condição humana e o bem-estar
da sociedade. A atividade empresarial é boa e necessária quando
respeita a dignidade do trabalhador, o cuidado do meio-ambiente e se
ordena o bem comum. Perverte-se ao visar só o lucro, atenta contra
os direitos dos trabalhadores e a justiça.
3.4.2 A ciência e a tecnologia
123. Louvamos a Deus por aqueles que cultivam as ciências e a
tecnologia oferecendo uma imensa quantidade de bens e valores
culturais que tem contribuído, entre outras coisas, para prolongar a
expectativa de vida e sua qualidade. No entanto, a ciência e a
tecnologia não têm as respostas às grandes interrogações da vida
humana. A resposta última às questões fundamentais do homem só pode
vir de uma razão e ética integrais, iluminadas pela revelação de
Deus. Quando a verdade, o bem e a beleza se separam; quando a pessoa
humana e suas exigências fundamentais não constituem o critério
ético, a ciência e a tecnologia voltam-se contra o homem que as
criou.
124. Hoje em dia as fronteiras traçadas entre as ciências se
desvanecem. Com este modo de compreender o diálogo, sugere-se a
idéia de que nenhum conhecimento é completamente autônomo. Esta
situação abre um terreno de oportunidades à teologia para interagir
com as ciências sociais.
3.5. A boa nova do destino universal dos bens e da ecologia
125. Junto com os povos originários da América, louvamos ao
Senhor que criou o universo como espaço para a vida e a convivência
de todos seus filhos e filhas e no-los deixou como sinal de sua
bondade e de sua beleza. A criação também é manifestação do amor
providente de Deus; foi-nos entregue para que cuidemos dela e a
transformemos em fonte de vida digna para todos. Ainda que hoje se
tenha generalizado uma maior valorização da natureza, percebemos
claramente de quantas maneiras o homem ameaça e inclusive destrói
seu ‘habitat’. “Nossa irmã a mãe terra” é nossa casa comum58 e o
lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação.
Desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus
estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador, um
atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida.
O discípulo missionário, a quem Deus encarregou a criação, deve
contemplá-la, cuidar dela e utiliza-la, respeitando sempre a ordem
dada pelo Criador.
126. A melhor forma de respeitar a natureza é promover uma
ecologia humana aberta à transcendência que, respeitando a pessoa e
a família, os ambientes e as cidades, segue a indicação paulina de
recapitular as coisas em Cristo e de louvar com Ele ao Pai (cf. 1
Cor 3,21-23). O Senhor entregou o mundo para todos, para os das
gerações presentes e futuras. O destino universal dos bens exige a
solidariedade com a geração presente e as futuras. Visto que os
recursos são cada vez mais limitados, seu uso deve estar regulado
segundo um princípio de justiça distributiva, respeitando o
desenvolvimento sustentável.
3.6 O Continente da esperança e do amor
127. Como discípulos e missionários agradecemos a Deus porque a
maioria dos latino-americanos e caribenhos estão batizados. A
providência de Deus nos confiou o precioso patrimônio de pertencer á
Igreja pelo dom do batismo que nos tem feito membros do Corpo de
Cristo, povo de Deus peregrino em terra americanas há mais de
quinhentos anos. Alenta nossa esperança a multidão de nossas
crianças, os ideais de nossos jovens e o heroísmo de muitas de
nossas famílias que, apesar das crescentes dificuldades, seguem
sendo fiéis ao amor.. Agradecemos a Deus pela religiosidade de
nossos povos que resplandece na devoção ao Cristo sofredor e a sua
Mãe bendita, na veneração aos Santos com suas festas patronais, no
amor ao Papa e aos demais pastores, no amor à Igreja universal como
grande família de Deus que nunca pode nem deve deixar seus próprios
filhos sós ou na miséria59.
128. Reconhecemos o dom da vitalidade da Igreja que peregrina na
América Latina e no Caribe, sua opção pelos pobres, suas paróquias,
suas comunidades, suas associações, seus movimentos eclesiais, novas
comunidades e seus múltiplos serviços sociais e educativos. Louvamos
ao Senhor por ter feito deste continente um espaço de comunhão e
comunicação de povos e culturas indígenas. Também agradecemos o
protagonismo que vão adquirindo setores que foram deslocados:
mulheres, indígenas, afro-americanas, os homens do campo e
habitantes de áreas marginais das grandes cidades. Toda a vida de
nossos povos fundada em Cristo e redimida por Ele pode olhar para o
futuro com esperança e alegria, acolhendo o chamado do Papa Bento
XVI: “Só da Eucaristia brotará a civilização do amor que
transformará a América latina e o Caribe para que, além de ser o
Continente da esperança, seja também o Continente do amor!”60.
CAPÍTULO 4
A VOCAÇÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS À SANTIDADE
4.1 Chamados ao seguimento de Jesus Cristo
129. Por assim dizer, Deus Pai sai de si, para nos chamar a
participar de sua vida e de sua glória. Mediante Israel, povo que
fez seu, Deus nos revela seu projeto de vida. Cada vez que Israel
procurou e necessitou de seu Deus, sobretudo nas desgraças
nacionais, teve uma singular experiência de comunhão com Ele, que o
fazia partícipe de sua verdade, sua vida e sua santidade. Por isso,
não demorou em testemunhar que seu Deus – diferentemente dos ídolos
– é o “Deus vivo” (Dt 5,26) que o liberta dos opressores (cf. Ex
3,7-10), que perdoa incansavelmente (cf. Ec 34,6; Eclo 2,11) e que
restitui a salvação perdida quando o povo, envolvido “nas redes da
morte” (Sl 116,3), dirige-se a Ele suplicante (Cf. Is 38,16). Deste
Deus – que é seu Pai – Jesus afirmará que “não é um Deus de mortos,
mas de vivos” (Mc 12,27).
130. Nestes últimos tempos, Ele nos tem falado por meio de Jesus
seu Filho (Hb 1,1ss), com quem chega a plenitude dos tempos (cf. Gl
4,4). Deus, que é Santo e nos ama, nos chama por meio de Jesus a ser
santos (cf. Ef 1,4-5).
131. O chamado que Jesus, o Mestre faz, implica numa grande
novidade. Na antiguidade, os mestres convidavam seus discípulos a se
vincular com algo transcendente e os mestres da Lei propunham a
adesão à Lei de Moisés. Jesus convida a nos encontrar com Ele e a
que nos vinculemos estreitamente a Ele porque é a fonte da vida (cf.
Jo 15,1-5) e só Ele tem palavra de vida eterna (cf. Jo 6,68). Na
convivência cotidiana com Jesus e na confrontação com os seguidores
de outros mestres, os discípulos logo descobrem duas coisas
originais no relacionamento com Jesus. Por um lado, não foram eles
que escolheram seu mestre foi Cristo quem os escolheu. E por outro
lado, eles não foram convocados para algo (purificar-se, aprender a
Lei...), mas para Alguém, escolhidos para se vincular intimamente a
sua pessoa (cf. Mc 1,17; 2,14). Jesus os escolheu para “que
estivessem com Ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3,14), para que o
seguissem com a finalidade de “ser d’Ele” e fazer parte “dos seus” e
participar de sua missão. O discípulo experimenta que a vinculação
íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da Vida saída das
entranhas do Pai, é se formar para assumir seu estilo de vida e suas
motivações (cf. Lc 6,40b), viver seu destino e assumir sua missão de
fazer novas todas as coisas.
132. Com a parábola da Videira e dos ramos (cf. Jo 15,1-8), Jesus
revela o tipo de vínculo que Ele oferece e que espera dos seus. Não
quer um vínculo como “servos” (cf. Jo 8,33-36), porque “o servo não
conhece o que faz seu senhor” (jo 15,15). O servo não tem entrada na
casa de seu amo, muito menos em sua vida. Jesus quer que seu
discípulo se vincule a Ele como “amigo” e como “irmão”. O “amigo”
ingressa em sua Vida, fazendo-a própria. O amigo escuta a Jesus,
conhece ao Pai e faz fluir sua Vida (Jesus Cristo) na própria
existência (cf. Jo 15,14), marcando o relacionamento com todos (cf.
Jo 15,12). O “irmão” de Jesus (cf. Jo 20,17) participa da vida do
Ressuscitado, Filho do Pai celestial, porque Jesus e seu discípulo
compartilham a mesma vida que procede do Pai: Jesus, por natureza
(cf. Jo 5,26; 10,30) e o discípulo, por participação (cf. Jo 10,10).
A conseqüência imediata deste tipo de vínculo é a condição de irmãos
que os membros de sua comunidade adquirem.
133. Jesus faz dos discípulos seus familiares, porque compartilha
com eles a mesma vida que procede do Pai e lhes pede, como
discípulos, uma união íntima com Ele, obediência à Palavra do Pai,
para produzir frutos de amor em abundância. Dessa forma o testemunho
de São João no prólogo de seu Evangelho:”A todos aqueles que crêem
em seu nome, deu-lhes a capacidade para serem filhos de Deus”, e são
filhos de Deus que “não nascem por via de geração humana, nem porque
o homem o deseje, mas sim nascem de Deus” (Jo 1,12-13).
134. Como discípulos e missionários, somos chamados a
intensificar nossa resposta de fé e a anunciar que Cristo redimiu
todos os pecados e males da humanidade, “no aspecto mais paradóxico
de seu mistério, a hora da cruz. O grito de Jesus: “Deus, meu, Deus,
meu, por que me abandonaste?” (Mc 15,34) não revela a angústia de um
desesperado, mas a oração do Filho que oferece a sua vida ao Pai no
amor para a salvação de todos”61.
135. A resposta a seu chamado exige entrar na dinâmica do Bom
samaritano (cf. Lc 10,29-37), que nos dá o imperativo de nos fazer
próximos, especialmente com o que sofre, e gerar uma sociedade sem
excluídos, seguindo a prática de Jesus que come com publicanos e
pecadores (cf. Lc 5,29-32), que acolhe os pequenos e as crianças
(cf. Mc 10,13-16), que cura os leprosos (cf. Mc 1,40-45), que perdoa
e liberta a mulher pecadora (cf. Lc 7,36-49; Jo 8,1-11), que fala
com a Samaritana (cf. Jo 4,1-26).
4.2 Parecidos com o Mestre
136. A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de
amor despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo
do coração do discípulo, uma adesão de toda sua pessoa ao saber que
Cristo o chama por seu nome (cf. Jo 10,3). É um “sim” que compromete
radicalmente a liberdade do discípulo a se entregar a Jesus,
Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6). É uma resposta de amor a quem
o amou primeiro “até o extremo” (cf. Jo 13,1). A resposta do
discípulo amadurece neste amor de Jesus: “Te seguirei por onde quer
que vás” (Lc 9,57).
137. O Espírito Santo, com o qual o Pai nos presenteia,
identifica-nos com Jesus-Caminho, abrindo-nos a seu mistério de
salvação para que sejamos seus filhos e irmãos uns dos outros;
identifica-nos com Jesus-Verdade, ensinando-nos a renunciar a nossas
mentiras e ambições pessoais, e nos identifica com Jesus-Vida,
permitindo-nos abraçar seu plano de amor e nos entregar para que
outros “tenham vida n’Ele”.
138. Para ficar parecido verdadeiramente com o Mestre é
necessário assumir a centralidade do Mandamento do amor, que Ele
quis chamar seu e novo: “Amem-se uns aos outros, como eu os amei” (Jo
15,12). Este amor, com a medida de Jesus, com total dom de si, além
de ser o diferencial de cada cristão, não pode deixar de