Por Carmen Elena Villa. CIDADE DO VATICANO,
quinta-feira, 4 de Junho de 2009 (ZENIT.org).
No próximo dia 19 de junho, o
Papa
Bento XVI inaugurará na Basílica de São Pedro o
Ano
Sacerdotal, com o tema:
“Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”.
Durante este
ano, Bento XVI proclamará
São João Maria Vianney como “padroeiro de todos os sacerdotes do
mundo”. Igualmente, será publicado o “Diretório para os confessores e
diretores espirituais”, assim como uma recopilação de textos do
Papa sobre temas essenciais
da vida e da missão sacerdotal
na época atual.
Zenit conversou com o cardeal brasileiro Claudio Hummes, O.F.M.,
prefeito para a Congregação do Clero e bispo emérito de São Paulo, que
apresenta este ano como
“propositivo” e como uma oportunidade para que os sacerdotes recordem
que “a Igreja os ama, que se preocupa com eles”.
– Qual é o principal objetivo do
ano
sacerdotal?
– Cardeal Hummes: Em primeiro lugar, a circunstância. Será um
ano jubilar pelos 150
anos da morte de São João
Maria Vianney, mais conhecido como o Santo Cura de Ars. Esta é a
oportunidade, mas o motivo fundamental é que o
Papa quer dar aos
sacerdotes uma importância especial e dizer quanto os ama, quanto os
quer ajudar a viver com alegria e com fervor sua vocação e missão.
Esta iniciativa do Papa
acontece em um momento de grande expansão de uma nova cultura: hoje
domina a cultura pós-moderna, relativista, urbana, pluralista,
secularizada, laicista, na qual os sacerdotes devem viver sua vocação
e sua missão.
O desafio é entender como ser sacerdote neste novo tempo, não para
condenar o mundo, mas para salvar o mundo, como Jesus, que não veio
para condená-lo mas para salvá-lo.
O sacerdote deve fazer isso de coração, com muita abertura, sem
“demonizar” a sociedade. Deve estar integrado nela com a alegria
missionária de querer levar as pessoas desta sociedade a Jesus
Cristo.
É necessário dar uma oportunidade para que todos orem com os
sacerdotes e pelos sacerdotes, convocar os sacerdotes a orar, fazê-lo
da melhor maneira possível na sociedade atual e também, eventualmente,
tomar iniciativas para que os sacerdotes tenham melhores condições
para viver sua vocação e a missão.
É um ano positivo e
propositivo. Não se trata, em primeiro lugar, de corrigir os
sacerdotes. Há problemas que sempre devem ser corrigidos e a Igreja
não pode fechar os olhos, mas sabemos que a grande maioria dos
sacerdotes tem uma grande dignidade e adere ao seu ministério e à sua
vocação. Dão sua vida por esta vocação que aceitaram livremente.
Lamentavelmente, existem os problemas dos quais nos inteiramos nos
últimos anos relativos à
pedofilia e outros delitos sexuais graves, mas, como máximo, talvez
podem chegar a 4% do clero. A Igreja quer dizer aos 96% restantes que
estamos orgulhosos deles, que são homens de Deus e que queremos
ajudá-los e reconhecer tudo o que fazem como testemunho de vida.
É também um momento oportuno para intensificar e aprofundar a
questão de como ser sacerdotes neste mundo que muda e que Deus colocou
diante de nós para ser salvo.
– Por que o Papa
apresentou São João Maria Vianney como modelo para os sacerdotes?
– Cardeal Hummes: Porque há muito tempo é o padroeiro dos párocos.
Faz parte do mundo do presbítero. Queremos também estimular várias
nações e conferências episcopais ou igrejas locais para que escolham
algum sacerdote exemplar de sua área, apresentá-lo ao mundo e aos
jovens. Homens e sacerdotes que sejam verdadeiramente modelos, que
possam inspirar e possam renovar a convicção do grande valor e da
importância do ministério
sacerdotal.
– Para o senhor, como sacerdote, qual é o aspecto mais belo
de sua vocação?
– Cardeal Hummes: Esta pergunta me faz recordar um fato de São
Francisco de Assis: Ele disse uma vez: “Se me encontrasse pelo caminho
com um sacerdote e um anjo, saudaria primeiro o sacerdote e depois o
anjo. Por quê? Porque o sacerdote é quem nos dá Cristo na Eucaristia”.
Isto é o mais fundamental e maravilhoso: o sacerdote tem o dom e a
graça de Deus para ser ministro deste grande mistério da Eucaristia.
O sacerdócio foi instituído por Jesus Cristo na Última Ceia. Quando
disse “Fazei isto em memória de mim”, deu aos apóstolos este
mandamento e também o poder de fazer isto, de fazer o mesmo que Jesus
fez na última ceia. E estes apóstolos transmitiram, por sua vez, este
ministério e este poder divino aos homens que são bispos e
sacerdotes.
Isto é o mais importante e o centro. A Eucaristia é o centro da
Igreja. O Papa João Paulo
II disse que a Igreja vive da Eucaristia. O sacerdote é o ministro
deste grande sacramento, que é o memorial da morte de Jesus.
E depois temos também o sacramento da Reconciliação. Jesus disse:
“A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados” (Jo 20, 23).
Veio para reconciliar o mundo com Deus e os seres humanos
entre eles. Deu o Espírito Santo aos apóstolos, soprando sobre eles.
Ele deu aos apóstolos, em nome de Deus e seu, aquilo que havia
adquirido com seu sangue e com sua vida na Cruz, transformando a
violência em um ato de amor para o perdão dos pecados. E disse aos
apóstolos que serão os ministros deste perdão. Isto é fundamental para
todos. Cada um quer ser perdoado de seus pecados, estar em paz com
Deus e com os demais. O mistério da reconciliação é muito importante
na vida do sacerdote.
Há outras muitas ações, como a evangelização, o anúncio da pessoa
de Jesus Cristo morto e ressuscitado, de seu reino. O mundo tem
direito de saber e conhecer Jesus Cristo e tudo o que significa seu
Reino. Este é um ministério específico também do sacerdote, que
compartilha com os bispos e com os leigos, que fazem o anúncio da
Palavra e devem levar as pessoas a um encontro intenso e pessoal com
Jesus Cristo.
– Como o senhor
acha acha que deve ser a formação de um seminarista nos âmbitos
pessoal, espiritual, intelectual e litúrgico? Que aspectos acha que
não podem faltar?
– Cardeal Hummes: A Igreja fala de quatro dimensões que devem ser
cultivadas com os candidatos.
Em primeiro lugar, a dimensão humana, a afetiva – toda questão de
sua pessoa –, sua natureza, sua dignidade e uma maturidade afetiva
normal. Isso é importante, porque é a base.
Depois está a dimensão espiritual. Hoje nos encontramos diante de
uma cultura que já não é nem cristã nem religiosa. Portanto, é ainda
mais necessário desenvolver bem a espiritualidade nos candidatos.
Existe também a dimensão intelectual. É necessário estudar
filosofia e teologia para que os sacerdotes sejam capazes de falar e
de anunciar Jesus Cristo e sua
mensagem hoje, de modo que se evidencie toda a riqueza do
diálogo entre a fé e a razão humana. Deus é o Logos de tudo e
Jesus Cristo é sua explicação.
Depois, obviamente, está a dimensão de apostolado, ou seja, deve-se
preparar estes candidatos para ser pastores no mundo de hoje. Neste
âmbito pastoral, hoje é muito importante a identidade missionária. Os
sacerdotes devem ter não só uma preparação, mas também um estímulo
forte para não limitar-se só a receber e oferecer o serviço àqueles
que vem para vê-los, mas também para sair em busca das pessoas que não
vão à Igreja, sobretudo daqueles batizados que se afastaram porque não
foram suficientemente evangelizados, e que têm o direito de sê-lo,
porque prometemos levar Jesus Cristo, educar na fé.
Isso muitas vezes não se fez ou se fez muito pouco. O sacerdote
deve ir em missão e preparar sua comunidade para que vá anunciar Jesus
Cristo às pessoas, ao menos àqueles que estão no território de sua
paróquia, mas também mais além desta.
Hoje, esta dimensão missionária é muito importante. O discípulo se
converte em missionário com sua adesão entusiasta, alegre a Cristo,
capaz de revestir d’Ele incondicionalmente toda sua vida. Devemos ser
como os discípulos: fervorosos, missionários, alegres. Nisto consiste
a chave, o segredo.
– Que atividades especiais vão realizar neste
ano, tanto para os jovens
como para os próprios sacerdotes?
– Cardeal Hummes: Haverá iniciativas no âmbito da Igreja universal,
mas o ano do sacerdote deve
ser celebrado também a nível local. Ou seja, nas igrejas locais, nas
dioceses e nas paróquias, porque os sacerdotes são os ministros do
povo e devem incluir as comunidades.
As dioceses devem impulsionar iniciativas tanto de aprofundamento
como de celebração, para levar aos sacerdotes a
mensagem de que a Igreja os
ama, respeita, admira e se sente orgulhosa deles.
O Papa abrirá o
Ano
Sacerdotal em 19 de junho,
na festa do Sagrado Coração de Jesus, porque é a Jornada Mundial de
Oração pela Santificação dos Sacerdotes. Haverá vésperas solenes
celebradas na basílica vaticana, estará presente a relíquia do Cura d’Ars.
Seu coração estará na Basílica como sinal da importância que o
Papa quer dar aos
sacerdotes. Esperamos que muitos sacerdotes estejam presentes.
O encerramento acontecerá um
ano depois. Ainda está por definir-se a data exata do grande
encontro do Papa com os
sacerdotes, ao qual estão convidadas todas as dioceses. Haverá outras
muitas iniciativas. Estamos pensando também em realizar um congresso
teológico internacional nos dias precedentes ao encerramento. Também
haverá exercícios espirituais. Esperamos também poder envolver as
universidades católicas, para que possam aprofundar no sentido do
sacerdócio, na teologia do sacerdócio e em todos os temas que são
importantes para os sacerdotes.
– O senhor poderia falar-nos agora dos desafios que um
sacerdote enfrenta nesta sociedade tão antirreligiosa? Como crê que
pode permanecer fiel a sua vocação?
– Cardeal Hummes: Em primeiro lugar, a Igreja, através de seus
seminários e formadores, deve fazer uma seleção muito rigorosa dos
candidatos. Depois, é necessário ter uma boa formação,
fundamentalmente na dimensão humana, intelectual, espiritual, pastoral
e missionária. É fundamental recordar que o sacerdote é discípulo de
Jesus Cristo e estar seguro de que tenha tido este encontro pessoal e
comunitário intenso com Jesus Cristo, tenha lhe dado sua adesão. Cada
missa pode ser um momento muito forte para este encontro. Mas também a
leitura da Palavra de Deus.
Como dizia João Paulo II, há muitas oportunidades para testemunhar
o encontro com Jesus Cristo. É fundamental ser um missionário capaz de
renovar este zelo sacerdotal,
de sentir-se alegre e convencido de sua missão e de conscientizar-se
de que isso tem um sentido fundamental para a Igreja e para o mundo.
Sempre digo que os sacerdotes não são importantes só pelo aspecto
religioso dentro da Igreja. Desempenham também um grandioso trabalho
na sociedade, porque promovem os grandes valores humanos,
estão muito perto dos pobres com a solidariedade, a atenção pelos
direitos humanos. Creio que
devemos ajudá-los para que vivam esta vocação com alegria, com muita
lucidez e também com coração, para que sejam felizes, dado que se pode
ser feliz no sacrifício e no cansaço.
Ser feliz não está em contradição com o sofrimento. Jesus não era
infeliz na cruz. Sofria tremendamente, mas estava feliz, porque sabia
que o fazia por amor e que isto tinha um sentido fundamental para a
salvação do mundo. Era um gesto de fidelidade a seu Pai.
– Que outros santos o senhor acha acha que podem ser
modelos para o sacerdote de hoje?
– Cardeal Hummes: Obviamente, o grande ideal é sempre Jesus Cristo,
o Bom Pastor. No caso dos apóstolos, sobretudo São Paulo. Celebramos o
Ano Paulino. Vê-se que ele
era uma figura realmente impressionante e que pode ser sempre uma
grande inspiração para os sacerdotes, sobretudo em uma sociedade que
já não é cristã.
Cruzou as fronteiras de Israel para ser apóstolo dos gentios, dos
pagãos. Em um mundo que está se afastando tanto de qualquer
manifestação religiosa, seu exemplo é fundamental. São Paulo tinha
esta consciência muito forte: Jesus veio para salvar, não para
condenar. É a mesma consciência que devemos ter nós diante do mundo de
hoje.